[2] Este Simão Vaz de Camões era filho de Duarte de Camões de Tavora, filho de outro Simão Vaz de Camões, senhor do morgado da Torre. Casou Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e Sousa, de quem houve, além de Simão Vaz de Camões, Luiz Gonçalves de Camões, e D. Maria da Camara, que casou com Francisco de Faria Severim. Quanto ao Simão que viveu em Coimbra, diz o linhagista que se casára á sua vontade, como quem desfaz na estirpe da esposa.
[3] A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: a qual casou depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira.
[4] Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361.
LISBOA
Antes do traslado, darei breve noticia do livro de outro viajante bem creado que nos visitou mais de espaço em 1730. A Description de la Ville de Lisbonne, impressa em Paris, n'aquelle anno, é facil de encontrar em Portugal.
Este viajante esteve no paço da Ribeira. Viu as riquissimas alfaias do vasto palacio. Reinava D. João V, o Salomão do occidente. Que valores não sorveu aquella vasa do Terreiro do Paço vinte e cinco annos depois!
Uma cousa achou tristissima o viajante; eram as noites de Lisboa:
«Esta grande cidade (diz elle) não é alumiada de noite, e é isso causa a que um homem se veja em embaraços para acertar com o seu caminho, e soffra sobre si os despejos de immundicies que lá se atiram das janellas ás ruas, porque as casas não tem latrinas. A obrigação de cada qual é levar essas immundicies ao rio, para o que ha negras que se occupam n'este serviço muito baratas; mas a plebe não quer saber d'essas ordens. Nas ruas não se anda de noite com bastante segurança, salvo quando se é, como lá dizem, embuçado, isto é, quando se envolve a gente em um farto capote, desde a cabeça até ás canellas: é um trajar exquisito, de que usam as pessoas mais qualificadas, e até os principes, como trajo privilegiado e respeitado. O respeito que se tem a esta especie de mascara, vem de impedir que os taes se reconheçam, e do receio que o disfarce encubra armas de fogo prestes a disparar-se sobre quem os insultar ou quizer conhecer... Lisboa não tem passeio algum, nem divertimento de nenhuma casta a não ser um mau theatro hespanhol. Os fidalgos, não obstante, frequentam este theatro; e, depois que sahem[5] vão gastar o restante do dia a passear nas suas carruagens, na praça do Rocio, onde palestream até á noite, sem sahir das carruagens. As cadeirinhas usam-se muito, e as liteiras estão na moda das damas distinctas e dos velhos; mas, por conta das ruas intransitaveis, os coches são raros.»