Fallando de estalagens, diz que eram quasi todas francezas, inglezas e hollandezas, sendo a melhor de todas uma franceza na praça dos Romulares, onde o passadio de cada dia custava 6 francos.
Attribue a carestia á diminuta concorrencia de estrangeiros, que se hospedem fóra das casas dos amigos.
Já n'aquelle tempo, pelos modos, era mais barato hospedar-se a gente em casa dos amigos. N'este particular, não adiantamos nada. Outros forasteiros, que não tivessem amigos em Lisboa, costumavam alugar quartos, com uma banca, seis cadeiras de palha, louça de barro, e cama no chão, constante d'uma enxerga e duas cobertas, que á noite se desdobram sobre uma esteira de junco. Diz elle que nas hospedarias era peor.
Conheceu o sujeito em Lisboa uma senhora portugueza, casada com um negociante francez, de Bayonna. A tal senhora via o que se passava no interior do corpo humano e nas entranhas da terra, não tendo nos olhos senão grande belleza. Incommodava-se-lhe a vista quando divisava nos reconditos escaninhos da economia animal abscessos asquerosos. Via os phenomenos physiologicos da digestão, e dizia se o feto no ventre materno era macho ou femea, aos sete mezes. Na profundeza de 30 ou 40 braças descobria mananciaes d'agua. Estas prerogativas extraordinarias só as gozava em quanto estivesse em jejum; algumas vezes, porém, á hora de sesta, refinava no condão de vêr os rins de um homem gordo através do capote. Os descobrimentos de agua, já para o rei já para os particulares, o voto dos sabios e dos ministros, em fim, os incontroversos prodigios d'esta mulher grangearam-lhe a mercê regia do dom e o habito de Christo para seu marido.
O padre Le Brun, no anno seguinte á publicação d'este livro, metteu a riso a historia da lisboeta. (Veja Histoire critique des Pratiques superstitieuses, etc., l. 1.º, cap. 6, edição de Amsterd. 1733). Mas o cavalheiro de Oliveira que demorava então em Londres, onde publicava o seu Amusement periodique, a pag. 274 e seguintes do 2.º tomo, impugna a incredulidade do francez, com as seguintes razões. E note-se, primeiramente, que Francisco Xavier de Oliveira foi o portuguez mais incredulo do seu tempo; e, se não fugisse de Portugal, teria sido queimado como herege.
Diz elle:
«Eu não subscrevo ás suspeitas de impostura que o padre Le Brun irroga á mulher portugueza, porque a conheci pessoalmente, tendo ella entre onze e doze annos. Vi-a, pela primeira vez, em Paço d'Arcos na quinta de Jeronymo Lobo Guimarães, onde fôra para indicar o ponto onde havia agua. Do primeiro lanço de olhos, apontou o sitio. Lobo fez cavar no ponto indicado, e achou agua abundantemente. Verdade é que ella marcava entre seis e sete braças; e a agua borbulhou na profundidade de oito. Tambem é certo que, estando eu vestido, ella me disse positivamente os signaes todos que eu tinha na pelle, e o mesmo fez a cinco pessoas presentes. Afianço isto como testemunha ocular. Que ella visse através da pelle, nunca ouvi dizer...»
Prolonga-se o cavalheiro de Oliveira abonando os prodigios contrariados por Le Brun, e prosegue:
«Declarou esta menina que não podia entrar em igrejas e atravessar cemiterios, por causa do horror que lhe faziam os cadaveres enterrados, que ella via podres debaixo das lapides. Todos os tribunaes, e maiormente o do santo officio, tomaram conhecimento d'esta declaração. Abriu-se um tumulo como experiencia, e achou-se o cadaver qual ella o descrevera, antes que levantassem uma grossa lousa. Não sei que destino teve esta mulher: o que sei é que nem a inquisição nem algum tribunal a inquietou[6].»
Proseguindo na viagem do admirador da prodigiosa lisboeta, refere elle algumas cousas da côrte de D. João V que precisam ser esclarecidas.