Numera os officiaes, que servem a casa real, e diz que, áquelle tempo, o officio de mordomo-mór tinha vagado, em consequencia de ter fugido de Portugal em 1724 este empregado do paço com uma das mais formosas damas do reino, esposa de um fidalgo. E acrescenta:

«O rei mandou depós os fugitivos um esquadrão de cavallos; mas como elles levavam um dia de avanço, e correram á desfilada, a tropa não logrou apanhal-os; por maneira que chegaram a Vigo[7], na Galliza sem embaraço. Com tudo, breve lhes foi o contentamento; porque o bispo d'aquella cidade fez entrar a dama em um mosteiro, e o fidalgo retirou-se para Madrid. O marido da fugitiva vestiu-se de luto, assim que soube da fuga; e, conforme o prejuizo do paiz, ou como lá dizem os portuguezes, porque tinha barbas, jurou não apparecer mais sem matar o raptor, e matar ou enclausurar para sempre sua mulher.»

No immediato numero saberá o leitor quem foram os personagens d'este caso, que envolve tragedia digna de livro de maior fôlego.

[5] Vê-se que as representações eram de dia.

[6] São rarissimos ou talvez unicos em Portugal, estes livros do cavalheiro de Oliveira. Diz elle que apenas tinha na sua patria dous assignantes, e um era Jacome Raton.

[7] É erro: foi em Tuy.


VOLTAS DO MUNDO

Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazão e Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. João III.