Apenas livre, correu á barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se ás ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao sossobro, que já o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as náos balouçavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capitão, que lhe quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em tamanho quebranto de forças que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado duas leguas de mar!
Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho.
S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso, demorava no termo de Barcellos.
Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira.
Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e enviou-lhe o seu nome.
O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes, o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo estas vozes frementes de odio:
--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho!
E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas, e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a India.
E lá foi ceifar novos louros.
Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na capella do Santissimo Sacramento da igreja matriz de Barcellos, onde estavam os ossos de seus paes e avós.