Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram, estando Garrett na agonia da morte.
Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade.
Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado.
--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que eu involuntariamente causei a Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe attribuiam.
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Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho.
Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo:
«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima, encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José Gomes Monteiro![9]»
E vai agora, o dos Musicos, péga de Garrett, adormecido, havia 19 annos, no sagrado somno dos mortos santificados por saudade, talento e veneração, e enxovalha-o d'esta arte:
«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para brilhar como um vieux vert aos olhos das petites maítresses de ha 30 annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando com a sua vida airada a confirmação de que o genio immenso precisa da bohème para a sua inspiração, etc.[10]».