A noticia que Barbosa Machado me deu, rezava assim: Pedro de Alpoem Contador, natural de Coimbra, doutor em direito cesareo, collegial do collegio de S. Pedro, aonde foi admittido no 1.º de janeiro de 1578. Na universidade patria regentou a cadeira de Instituta, que levou por opposição a 18 de outubro de 1572, d'onde passou á do Código em 2 de janeiro de 1579. Foi um dos celebres defensores da successão da corôa portugueza a favor da senhora D. Catharina, como tambem do direito que tinha á mesma corôa o snr. D. Antonio, prior do Crato, por cuja causa morreu degolado. Escreveu: Carta ao duque de Bragança D. João, o primeiro de nome, quando Philippe Prudente entrou em Portugal. A data é do Seio de Abrahão a 20 de julho de 1581. Começa: «Obriga-me a escrever a v. exc.a cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos.» Acaba: «Conforme a santa lei d'este reino ao qual Deus eternamente tem promettido conservar.» É larga, muito judiciosa, e consta de uma forte invectiva contra o cardeal D. Henrique, por dispôr que os castelhanos se senhoreassem de Portugal, e juntamente contra o mesmo duque de Bragança por seguir o cardeal. (Tom. III, pag. 553).
Alguns annos frustrei esforços em busca da carta manuscripta de Pedro de Alpoem, pois, com certeza, não corria impressa; até que, entre uns papeis pertencentes á rica livraria do jurisconsulto Pereira e Sousa, e havidos por compra em 1873, se me deparou a carta que Barbosa Machado inculcára.
O investigador equivocou-se attribuindo-a ao doutor Pedro de Alpoem. Se reparasse que ella é datada no Seio de Abrahão, deprehenderia logo que, em nome de Pedro de Alpoem, já degolado em 20 de julho de 1581, alguém escreveu aquella carta, como vinda d'além-mundo. E, até no começo da carta, as palavras: Obriga-me a escrever a v. exc.a cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos, estão confirmando a ficção.
Posto que o prazer de possuir um inedito de Alpoem se me agorentasse á luz da boa critica, nem por isso desestimei o manuscripto, onde abundam especies historicas não sabidas, traços profundos da physionomia do avô de D. João IV, e alguns lanços ignorados da biographia da nobre victima da amizade e do patriotismo.
Persisti, assim mesmo, na indagação da linhagem de Pedro de Alpoem, esperançado em descobrir miudezas que realçassem as feições principaes, já de si bastante proeminentes a caracterisal-o. Pouco mais esquadrinhei, senão que foi filho de Antonio de Alpoem, e neto de Pedro de Alpoem, e de uma senhora de appellido Caldeira, filha de Affonso Domingos de Aveiro, instituidor da capella de Santo Ildefonso, na igreja de S. Thiago em Coimbra, da qual o justiçado amigo de D. Antonio era administrador[18]; e, como não deixasse descendencia, o morgadio passou a seus parentes, filhos de Isabel Caldeira, irmã de seu avô, casada com Estevão Barradas.
No fim do seculo XVIII, o possuidor do morgadio de Pedro de Alpoem era Lopo Cabral da Silveira, bisneto de D. Isabel Caldeira. Estas impertinencias genealogicas pouco montam na historia de um homem que se dispensava de avós illustres, bastando-lhe a proeza individual e sua de dar a cabeça ao algoz e legar o nome sem mancha ao coração do principe homisiado; mas seria hoje em dia brasão aos que procedessem d'esse egregio sangue.
D. Antonio captivou na desgraça amigos que lhe sacrificaram haveres, liberdade, honras e vida. Sobrelevam entre outros o conde de Vimioso, o bispo da Guarda, D. Diogo de Menezes,--que o duque d'Avila mandou enforcar em Cascaes, juntamente com Henrique Pereira, alcaide do castello--, Duarte de Lemos, senhor da Trofa, D. João de Azevedo, Antonio de Brito Pimentel, Diogo Botelho, D. Duarte de Castro, D. Manoel de Portugal, Manoel da Fonseca da Nobrega, e D. João de Castro, o visionario, que, morta a esperança no filho de Violante Gomes, resuscitou D. Sebastião na pessoa do calabrez Marco Tullio.
As historias antigas e tambem as modernamente escriptas pelos snrs. Rebello da Silva e Pinheiro Chagas não mencionam um amigo estrenuo do prior do Crato. Era Martim Lopes de Azevedo, 19.º senhor da casa de Azevedo, hoje representado pelo snr. visconde d'aquelle titulo, cavalheiro em quem se alliam as altas qualidades do coração com superiores dotes de provada intelligencia.
Da inflexivel dedicação de Martim Lopes de Azevedo se lembra o principe desterrado na Carta latina que escreveu ao papa Gregorio XIII, e outro sim no seu testamento impresso nas Provas da historia genealogica da casa real, tom. II, pag. 556.
Era, ao tempo, aquelle fidalgo senhor da villa de Souto de Riba-Homem, e outros senhorios e padroados de igrejas. Bandeou-se com o filho do infante D. Luiz, logo que o duque de Bragança offereceu a sua casa como valhacouto seguro aos embaixadores hespanhoes, a quem os partidarios do rei portuguez ameaçavam, depois da morte do cardeal-rei.