Respeito a Farias, houve um, em tempo d'el-rei D. Fernando. O leitor conhece da historia e do romance o celebrado alcaide do castello de Faria, chamado Nuno Gonçalves, que os castelhanos mataram, quando elle, na barbacã da fortaleza, ameaçou de maldição o filho, se a entregasse para salvar seu pai. O snr. Herculano refere este caso com primoroso enthusiasmo.

O filho chamava-se Gonçalo Annes, que se fez clerigo por desgosto de vêr alli trespassado o pai debaixo de seus olhos; a paixão, porém, não lhe impedia reproduzir-se em tres meninos, de quem foi mãi Aldonsa Vasquez.

Do mais velho, que se chamou Nuno Gonçalves de Faria, conhece-se a descendencia. Esse Diogo que no alvará se diz ter passado a Castella, nem era filho de Francisco de Faria, nem passou a Castella: era filho do valido de D. João II, Antão de Faria, e casou com D. Maria de Goes, filha de Simão de Goes Machado.

No lapso de quatro seculos, a varonia do alcaide de Faria--a que eu considero mais respeitavel, mais poetica, mais desculpavel aos fanaticos d'estes archaismos--é a que se tiver conservado na posse das penedias contiguas do esboroado castello, cuja alcaidaria foi do heroico Nuno Gonçalves. O possuidor, ha trinta annos, d'essas ruinas, era João de Faria Machado Pinto Roby. Vendeu as ruinas a um brazileiro.

No mesmo anno em que morreu em Paris sua alteza serenissima o principe da paz, seu parente, morria elle em Lisboa. A providencia divina fez-lhe a mercê de o resgatar assim de um grande supplicio: elle sahia de noite, e pedia esmola aos que passavam. Tinha sido redactor do Nacional de Lisboa, e official de cavallaria muito valente.

Deixou um filho chamado Isidoro de Faria Machado que se suicidou ha dous annos em Lisboa.

Uma de suas filhas é hoje viuva do visconde da Carreira, Luiz. As outras não sei que destino tiveram.


Toda esta noite se me foi de insomnia, a vêr sempre, na penumbra da lamparina, um homem que em Lisboa, ha 24 annos, me dizia com a face coberta de lagrimas:

--Procurei tres amigos que me foram hospedes em meus lautos jantares, quando eu aqui dissipava o meu ouro e a minha intelligencia no serviço da politica. Apenas um se lembra de me conhecer em 1838; mas este é pobre; os outros não se recordam... Sabe qual é a minha esperança?