Os meus reparos n'este livro tocam sómente com o que ha n'elle relativo á familia de Luiz de Camões; mas, ahi mesmo, é deploravel a falta de siso do biographo.
A pag. 233 suppõe o snr. Theophilo que entre uns papeis que se perderam de Luiz de Camões houvesse cartas escriptas aos seus amigos mais valiosos intercedendo por seu pai que estava preso.
A pag. 243, no summario do capitulo VI, diz: A noticia do perdão de seu pai Simão Vaz de Camões. Temos ainda Camões com pai.
A pag. 259: Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Náos partidas no principio do anno de 1557 soube Camões... da sentença que condemnava Simão Vaz de Camões, seu pai, para o degredo perpetuo do Brazil com pregão e cadeado.
O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Camões tinha um pai, que por estouvamentos de rapaz devasso, ahi na volta dos 60 annos, mereceu ser condemnado a degredo com pregão e cadeado; mas, por acaso, volta a pagina das erratas, e vê que o biographo lhe pede que leia primo onde estiver pai. Parece uma anecdota isto!
Que razões motivaram esta correcção? Que raio de luz dardejou o bom senso na ultima pagina do livro? Pois o doutor, durante a formação do estirado livro, não teve um intervallo lucido? E, se o teve no fim, porque não queimou a obra desde a primeira pagina, embora se perdesse a Carta de Ayres Barbosa a André de Rezende?
Eis aqui o modo como o snr. Theophilo descobriu a final que Simão Vaz de Camões era primo e não era pai do poeta.
Quando o livro ia sahir do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas linhas, publicava, no Diccionario de educação de Campagne, um breve artigo intitulado Camões, em que se lêem estes periodos:
«Os louvores ao prodigioso genio de Luiz de Camões são tantos, e tão amiudados no discurso de tres seculos que já hoje em dia o repetil-os, pelos mesmos conceitos e fórmas encomiasticas, nos parece banal encarecimento. Mais util e plausivel nos avulta o esforço de alguns biographos empenhados em esclarecer os lanços menos claros da biographia do poeta. N'esta ardua lide tem mostrado ardente zelo o snr. visconde de Juromenha, o mais particularisador noticiarista da vida de Luiz de Camões. Todavia, assentando boa parte de suas innovações em conjecturas, resulta que a louvavel vontade de esclarecer se demasie em hypotheses pouco menos de inverosimeis. Está em o numero d'estas a affirmativa de residir em Coimbra por 1556, o pai de Luiz de Camões, Simão Vaz. Este mesmo é na hypothese do biographo, um tal que o corregedor de Coimbra enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado em mosteiro de freiras, e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com os seus criados, espancava o almotacé de Coimbra. Bastaria a despintar da phantasia do snr. visconde de Juromenha semelhante conjectura, a pobreza do filho, que recebeu 2$400 reis para se alistar na armada, em lugar d'outro, em quanto seu pai, com mais de cincoenta de idade, andava por Coimbra escalando conventos, e já com mais de setenta espancava as justiças, acaudilhando criados,--circumstancia indicativa de vida abastada, e orgulho de fidalgo com as posses que dão azas ao orgulho.
«De todo em todo aniquila a supposição de que o mexediço Simão Vaz de Camões haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Anna de Macedo, uma nota do snr. doutor Ayres de Campos, sobposta ao traslado da provisão passada em 16 de maio de 1576, a respeito das injurias e offensas praticadas por Simão Vaz de Camões no almotacé. Eis a nota: «E para tambem não ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos que com estes tem estreitas relações, aqui os apontamos desde já em quanto as suas integras não forem publicadas no supplemento. Assim elles vão prestar auxilio valioso, e não grande embaraço a todos os criticos illustres que, talvez fascinados por meras semelhanças de nomes e appellidos, não teem hesitado em attribuir ao turbulento cidadão conimbricense Simão Vaz de Camões, muito vivo e são em 1576, a honrosa paternidade legitima do author dos Lusiadas.» Cita mais o insigne antiquario a vereação da camara de Coimbra de 31 de julho de 1563 da qual se deprehende que Simão Vaz havia casado em 1562, e casára novamente. Ora, quer o novamente signifique segundas nupcias, quer primeiras, como alguem aventa, sem dar a razão do alvitre, é certo que esse não podia ser o pai de Luiz de Camões, que falleceu antes de sua mãi. (Veja Indices e Summarios dos Livros e Documentos mais antigos e importantes do Archivo da Camara Municipal de Coimbra. Coimbra, 1867, pag. 7).