--Ás 4 da tarde; e leve tinteiro e papel, que não ha lá d'isso.

Á hora aprazada, entrou o bisneto do capitão-mór na extincta honra dos Pachecos e Andrades. Já lá estava o brazileiro, ás testilhas com os alveneis. Assim que chegou o escrevente do tabellião, subiu com elle por entre um matagal de bravio até ao alto de um outeirinho onde se erguia um pombal já descaliçado, mas ainda assim a porção menos esboroada das pertenças da quinta, graças á fortaleza do tecto abobadado de pedra.

Havia dentro uma banca de granito, onde outrora os senhores de Real se desenfastiavam em merendas, depois das fadigas da caça na tapada defeza. Já lá estavam duas cadeiras.

--Sente-se ahi, snr. Alvaro--disse José Maria Guimarães,--e vá escrevendo.

--Prompto!--respondeu o escrevente, rodando a sibilante tarracha do tinteiro de chifre.

--Ponha ahi os nomes dos pobres da freguezia que não tem casa de seu.

Alvaro Pacheco escreveu trinta e quatro nomes; quedou-se um momento, e perguntou:

--De todos os pobres que não tem casa?

--Sim, de todos os pobres que não tem casa propria.

--Então, falta o meu nome. Somos trinta e cinco os pobres que não temos casa.