Elucidemos a historia do viajante.
O mordomo-mór que fugia era D. João de Mascarenhas, 4.º marquez de Gouvêa, e 7.º conde de Santa Cruz. Tinha 25 annos, e era casado com uma hespanhola, chamada D. Thereza de Moscoso e Aragão, filha do 7.º conde de Altamira.
A senhora que fugiu com elle era D. Maria da Penha de França, tambem casada com seu primo-irmão D. Lourenço de Almada, muito moço.
Tinham casado em 1722. Em junho de 1723 D. Maria da Penha de França deu á luz uma menina, que se chamou Violante. E, na noite de 11 de novembro de 1724, a esposa, abandonando marido e filha, fugiu com o marquez.
Este desastre não foi precedido de ardentes galanteios e grandes resistencias do pudor vencido pela paixão.
D. Maria foi de visita ao paço, onde havia sido dama, como sua mãi D. Violante Henriques o fôra da rainha D. Maria Sophia de Saboya. Viu o marquez que era galan, audaz, e sem ser milagre, fulminou-o com o relampago da formosura. Fugiram e pararam em Tuy. Não foi em Vigo como diz o viajante. Julgavam-se salvos em terra estrangeira; mas o bispo, por ordem vinda de Madrid, prendeu D. Maria n'um mosteiro; e o marquez fugiu por Hespanha dentro, e mais tarde para Inglaterra.
Tanto que em Lisboa se divulgou a prisão da mulher de D. Lourenço de Almada, certo poeta escreveu um soneto gravido de maus versos e boa moral, que diz isto:
D'esse claustro a sagrada penitencia
Pia te esconda, oh bella criminosa,
E converta-se em sombra a luz formosa
Que ardeu nos sacrificios da indecencia.
Tolera da prisão toda a violencia,
Perdida já a nobreza generosa;
Fique ainda entre a culpa indecorosa
Benemerita ao menos a paciencia.
Principia a morrer n'essa clausura
Encobrindo um descredito infinito
No antecipado horror da morte escura.
Mas ah! se em ti, por ultimo conflicto,
Como vai sendo de vida sepultura,
Chegasse a ser cadaver o delicto!
Hei de escrever um livro que ha de chamar-se o desterrado. Estes desastres hão de ser esmiuçados compridamente. O Desterrado do meu romance não é o marquez de Gouvêa: é outra casta de personagem. Bem sei que esfrio o interesse do futuro livro, bosquejando-o aqui em poucas linhas. Não importa. A curiosidade do leitor é mais attendivel que as conveniencias mercantis d'uma novella.
Como sabem, D. Maria da Penha deixou nos braços do abandonado marido uma filhinha de onze mezes, que se chamou Violante. Esta menina, ahi pelos dezesete annos, amou seu primo D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, alcaide-mór de Villa do Conde, capitão de cavallos, e uns gentilissimos vinte e nove annos. Na casa dos Almadas, onde D. Luiz fôra creado--porque sua mãi casára em segundas nupcias com D. Luiz José de Almada--havia um D. Antão, que se apaixonára por Violante, que era sua sobrinha. A menina esquivara-se ás caricias do tio, e deixou-se arrebatar nos braços do primo D. Luiz, quando uma ordem regia o desterrou para Moncorvo, a rogos de D. Antão de Almada. Os dous fugitivos (que desterro tão semelhante, o de mãi e filha!) esconderam-se e casaram em Zamora; mas ahi mesmo os enviados do cioso tio a foram colher de sobresalto e a trouxeram a Portugal.