Esteve a menina reclusa alguns annos em Marvilla, com o proposito de professar, pois que a lei lhe annullára o casamento com o primo; não obstante, porém, a saudade do desterrado primo, ao fim de onze annos, aceitou seu tio para esposo, do mesmo passo que D. Luiz era banido e desnaturalisado para sempre. Aqui fica muito pela rama o entrecho do livro para o qual se estão aprestando as peças essenciaes da vida tempestuosa de D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, fallecido aos 75 annos, e terceiro avô do actual snr. visconde de Sanches de Baena[2].
De D. Violante e de seu tio D. Antão de Almada (sem embargo das amarguras da violentada esposa) nasceu D. Lourenço de Almada, que foi o 1.º conde do seu appellido em 1793.
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Outra indicação do viajante que estimula a curiosidade:
«A casa da rainha e dos principes são analogas á do rei. O posto de camareiro-mór da rainha vagou por morte do marquez das Minas, assassinado em 1721. Este senhor era genro do marechal de Villeroy; e seu filho, o conde do Prado, está presentemente na côrte de França.»
Já d'este caso dei n'outro livro a noticia que transcrevo do citado periodico de Francisco Xavier de Oliveira:
«Um corregedor guardava uma porta da igreja da casa professa dos jesuitas, quando alli se celebrava grande festividade. Sómente o rei havia de entrar por aquella porta. Chegaram aqui o marquez das Minas e o conde da Atalaya; mas o corregedor com razão lhes vedou o passo. Insistiram elles, dizendo ao ministro que as ordens recebidas não podiam entender-se com pessoas de sua esphera. Redarguiu o corregedor que as ordens ninguem exceptuavam, e por tanto, sem que o rei entrasse, não podia elle permittir que entrasse quem quer que fosse. Aquelles senhores podiam entrar por outras portas francas a toda a gente. Não obstante, pertinazmente exigiram do corregedor uma distincção que elle não podia dar-lhes sem transgredir os deveres... Os dous fidalgos, depois de o terem insultado, passaram ás ultimas. O conde da Atalaya deu com o chapéo na cara do corregedor, e o marquez das Minas traspassando-o com a espada, matou-o. Em seguida cavalgaram, e sahiram do reino. O marquez das Minas foi perdoado e voltou ao reino[3].»
Crê o leitor que, não obstante o perdão, o marquez das Minas passaria o restante da vida sequestrado das graças do monarcha e da convivencia das pessoas de bem? Não faça juizos temerarios o leitor: o marquez das Minas recebeu o indulto, e ao mesmo tempo o bastão de general.
Já vimos a justiça dos homens: agora vejamos a da Providencia. Servia no exercito portuguez um castelhano chamado D. Juan de la Cueva, que não dava excellencia ao seu general, marquez das Minas, sem que este lhe désse senhoria. «Ora, o marquez, assassino do corregedor,--diz o cavalheiro de Oliveira--era soberbo e arrogante. Um dia, ao entardecer, sahia elle da portaria da congregação de S. Philippe Neri, a tempo que desgraçadamente Juan de la Cueva ia entrando. Cortejou elle o marquez, que lhe não deu a pretendida senhoria, e por isso de la Cueva lhe não deu excellencia. O general, grandemente irritado, levantou o bastão e proferiu palavras ameaçadoras. De la Cueva, sem lhe dizer palavra, traspassou-o com a espada. O marquez não tugiu nem mugiu: quando cahiu por terra, já ia morto. O padre, que o acompanhára até á portaria, e era confessor d'elle, apenas teve tempo de lhe apertar a mão. D. Juan de la Cueva pôde escapar-se, e refugiou-se em Hespanha[4].»
Na jurisprudencia divina a justiça mais seguida é a pena de Talião.