[2] Veja Apontamentos biographicos ácerca de D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, etc., por Innocencio Francisco da Silva, Lisboa 1869.

[3] O cavalheiro de Oliveira não designa o tempo de expatriação do marquez das Minas, conde do Prado. Deviam ser dez annos, segundo a sentença manuscripta de que dá noticia o snr. Innocencio Francisco da Silva, a pag. 233 do 7.º tom. do Dicc. Bibliog. Diz assim: «Sentença da Relação de Lisboa, contra os condes do Prado e da Atalaya por matarem publicamente o corregedor do Bairro-Alto no exercicio da sua authoridade. O primeiro, tendo-se evadido, foi justiçado em estatua; o segundo condemnado a degredo por dez annos, e ambos em multas pecuniarias». Creio que ha equivoco, na transcripção da sentença. O queimado em estatua foi o conde de Atalaya, que, no dizer do cavalheiro de Oliveira, morreu furioso em Vienna, depois de ter militado no exercito do imperador de Austria. Quanto ao marquez das Minas, presume-se que lhe foi indultada a sentença, visto que o citado Oliveira diz que obteve perdão e voltou a Lisboa.

[4] Amusement, 2.º v. pag. 147 e 148.


LITTERATURA BRAZILEIRA

Longo tempo se queixaram os estudiosos do descuido dos livreiros portuguezes em se fornecerem de livros brazileiros. Nomeavam-se de outiva os escriptores distinctos do imperio, e raro havia quem os tivesse nas suas livrarias. Nas bibliothecas publicas era escusado procural-os. Em compensação, sobravam n'ellas as edições raras de obras seculares que ninguem consulta.

O mercado dos livros brazileiros abriu-se, ha poucos mezes, em Portugal. Devemol-o á actividade inteligente do snr. Ernesto Chardron. Foi elle quem primeiro divulgou um catalogo de variada litteratura, em que realçam os nomes de mais voga n'aquelle florentissimo paiz. Ahi se nos deparam, entre os poetas, Gonçalves de Magalhães, o correcto e sublime author da Confederação dos tamoyos; o lyrico e arrojado Alvares de Azevedo; o primaz dos escriptores brazileiros, e chorado Gonçalves Dias; o esperançoso devaneiador, fallecido no viço da idade, Casimiro de Abreu; Junqueira Freire que primou nos segredos da melodia e já não é d'este mundo; e o severo e cadencioso poeta de Colombo, tão estimado dos nossos. Entre os romancistas o fecundissimo Joaquim Manoel de Macedo, que disputa a supremacia a J. de Alencar, que tanta nomeada grangeou com o seu Guarany. Não lustram menos as novellas mimosissimas de Luiz Guimarães, e as arrobadas mesclas de prosa e verso de Machado de Assis. Em litteratura didascalica sobresahem os valiosos escriptos do professor, o snr. conego Fernandes Pinheiro, nomeadamente o Resumo de historia litteraria, que muito se avantaja a uns esbocêtos que em Portugal circulam nas escólas, e--o que é mais deploravel--nos estudos secundarios. São notabilissimos todos os livros do snr. J. M. Pereira da Silva, já na sciencia historica, já na politica, e ainda no romance, tão prosperamente estreiado na Aspazia. Sobre tudo, porém, os Varões illustres do Brazil e a Historia da fundação do imperio brasileiro são obras que denotam profundo estudo e muito engenho na boa disposição dos elementos e critica dos personagens historicos. Em varia sciencia, em livros elementares, em lexicologia, e ainda sobre motivos de religião é copioso o catalogo da livraria Chardron. Esta variedade argue a fertilidade de intelligencias que ajuntam á riqueza congenial d'aquelle solo os thesouros do espirito. E muito importa e cumpre observar que os brazileiros modernamente nos não cedem no zelo de imitar a linguagem pura dos grandes escriptores portuguezes dos seculos de ouro.

Não esqueçamos, todavia, que o impulsor d'este brilhante movimento litterario no Rio de Janeiro, e por isso em todo o imperio, é o livreiro-editor Garnier, espirito emprehendedor que tanto faz luzir os talentos que divulga, quanto lucra para si a honra de os fazer conhecidos e laureados. Quem calcular o despendio grande de empresas semelhantes n'aquelle paiz, deprehenda o quanto cumpre que seja robusto e afouto o pulso que removeu as immensas difficuldades com que ha trinta annos lutavam os escriptores do Novo-mundo para se fazerem conhecidos. Coube esta gloria e este triumpho ao snr. Garnier.

Falta dizer que os preços dos livros offerecidos no catalogo das casas Chardron, no Porto e em Braga, são modicos, reduzidos, e inferiores ao preço corrente das obras portuguezas de igual tomo.

E, pois que estou agradavelmente recommendando livros de brazileiros, seria injustiça não graduar de passagem ao menos o merito de uma obra que recentemente sahia dos prélos portuenses. É o Estudo sobre a colonização e emigração para o Brazil. É seu author o snr. Augusto de Carvalho, que tão grave e prestadiamente abre carreira de escriptor, em annos ainda muito na flôr, e com o espirito já a fructear as mais sensatas considerações sobre as questões controversas inculcadas no titulo da sua obra. Á substancia do livro allia-se o primor da fórma, a propriedade do termo, a chaneza eloquente, e, a espaços, a elevação do estylo que não innubla a clareza da idéa. É o snr. Augusto de Carvalho um brazileiro que nobilita as letras da sua patria, e está grangeando um lugar entre os melhores escriptores, e, desde já, o tem distincto entre os bons pensadores e cultores de idéas proficuas. Congratulo-me com os seus conterraneos.