Em um numero da Lanterna, periodico truculento, li que a esposa do viuvo de D. Maria II havia sido pateada na rampa do theatro de S. João, em 1859.

É calumnia, que vou desfazer com a imprensa contemporanea.

Conceda-se-me a abstinencia de tratamentos regiamente honorificos, em quanto a nobre condessa de Edla me permitte pleitear em prol dos seus creditos de cantora.

A snr.ª Elisa Hensler cantou, pela primeira vez, no theatro do Porto, na noite de 8 de outubro de 1859. O Nacional do dia 10 escreve o seguinte:

«A companhia italiana estreou-se effectivamente no sabbado, e não se estreou mal. A escolha da opera foi acertada--«O Saltimbanco»; é uma bella partitura... e a prima-dona Hensler é bella, joven, e canta com mimo. A sua voz, se não é possante, é melodiosa e expressiva, tem alcance bastante para o nosso theatro. O publico ficou agradavelmente surprehendido, e deu lisongeiro acolhimento á mimosa cantora... Tanto no duetto como no rondó mostrou a snr.ª Hensler que possue dotes musicaes pouco vulgares. O sentimento com que cantou os andantes do duetto, a bravura e perfeição na execução da difficil parte do rondó, e aquelles trilos tão nitidos e puros, que ella faz em notas tão agudas no rondó, é sufficientemente para corroborar as grandes e vantajosas informações que a precederam; e o publico foi justo com os applausos e chamadas no fim da opera.»

Receio que os detractores da mimosa cantora venham com artigos de suspeição ao Nacional, culpando-o de parcial e apaixonado, já no louvor, já na censura, em juizos theatraes. Contra esses artigos redargúo estampando a opinião do Commercio do Porto, o jornal mais serio do paiz:

«Abriu-se no sabbado com a opera o «Saltimbanco» de Paccini... Fizeram a sua estreia n'esta opera a primeira dama Elisa Hensler, etc. A prima dona Hensler foi applaudida e teve uma chamada no fim.» (Commercio de 10 de outubro). E no folhetim de 15 do mesmo mez, confirma n'estes termos: «A snr.ª Hensler é uma excellente cantora. A sua voz de soprano-agudo é de sonoro timbre; e, ainda que de pouco volume, extensa, flexivel, melodiosa e fresca. Possue, além d'estes dotes naturaes, outros não menos valiosos como cantora: conhecimento do mechanismo do canto, perfeita entoação e expressão. Revela a seu grande merito como cantatriz nos floreios, nas escalas chromaticas, e especialmente nos trinados. Na passagem da 1.ª á 2.ª cavaletta do seu rondó final faz admirar os tres longos e bellos trinados em sol, lá e si agudos. Na difficil cavaletta de sua cavatina do 1.º acto são muito merecidos os applausos que tem colhido. No larghetto e cantabile do duetto do baritono e soprano do 3.º acto, não obstante a agudissima tacitora em que está escripto, não deixa a snr.ª Hensler nada a desejar. A todas estas excellentes condições como artista e cantora reune uma presença sympathica, qualidade esta de muito valor no theatro.»

Já no Nacional de 13 este parecer viera corroborado com estes gabos: «E a prima-dona Hensler? Não desmereceu em nada das primeiras impressões que nos imprimiu.

«É sempre a cantora mimosa e correcta.»

O Commercio de 29 de outubro classifica maviosamente a dôce cantora com esta phrase:... «A prima-dona Hensler é o bijou da companhia.»