Na noite de 6 de novembro cantou a snr.ª Hensler a parte de Lucia. O Nacional diz o seguinte: «A snr.ª Hensler na aria do 3.º acto remiu-se do fiasco do 2.º, e cantou com tal mimo e doçura que a platéa apesar de gelada rompeu então em reiterados applausos.» (Nacional de 7 de novembro). O Commercio, esquivando-se á ingrata e desmerecida palavra fiasco, escreve: «A sr.ª Hensler foi muito applaudida no rondó, e os applausos foram merecidos no andante, que cantou lindamente, executando com admiravel justeza a cadencia em unisono com a flauta... Na cavaletta não foi tão irreprehensivel a execução.» Está de accordo com o Nacional de 8 de novembro: «A snr.ª Hensler continua a ser applaudida no rondó do 3.º acto, onde a bella cantora revela muito talento. Se a sua voz fosse tão volumosa como é suave, seria uma artista de infinito merecimento.»

A 12 de novembro principiam os jornaes a gemer sobre a gaveta do snr. Laneuville, empresario que se dissolvia, com quanto fosse insoluvel. Sem embargo, a snr.ª Hensler, na confirmação dos dous citados jornaes, excedia-se no mimo do canto. Dir-se-hia que attentava em captar com as harmonias dulcissimas da sua voz o archanjo torvo da miseria que espreitava o empresario por entre as bambolinas de cartão esgarçado.

Alguns amadores, que previam o desastre da empresa nas cadeiras vasias da platéa, fermentaram a occultas dous bandos que, mais ou menos ficticiamente, se apaixonassem pelas duas damas. É o que se deprehende das revelações do Commercio de 5 de novembro que reza assim:... «No pessoal da companhia não ha nada que desafie enthusiamo e dê vida animada ao theatro, apesar dos esforços que alguns poucos frequentadores do theatro, dos mais desenfadados, empenham para crear partido ás duas damas.

«Houve já episodios curiosos; porém nem as damas, nem os seus admiradores conseguem fazer móça no indifferentismo do publico, que reconhece superioridade relativa na dama Hensler; mas não vê ainda assim motivo justificado para se enthusiasmar.»

Com a sua usual discrição, omittiu o Commercio os episodios curiosos. Bem é de vêr que o amor, ideal da arte das fusas e semifusas, não seria estranho aos sonegados episodios. A radiosa belleza da cantora sem duvida attrahia umas borboletas, que então douravam o seu polen sob as fulgurações do lustre; todavia, como a dignidade da artista se esquivasse ás intrigas de bastidor que, ás vezes, galvanisam os empresarios oxydados, a empresa falliu.

Decorreram uns quinze dias angustiados para a companhia desvalida. Hermann, aquelle prestigiador cavalheiroso que morreu ha dous annos, estava então no Porto. Foi elle o generoso valedor dos artistas e ainda do empresario. A companhia, em fim de dezembro, estava dispersa, não deixando um vestigio de fragilidade no seu rasto de pobreza.

Em 21 de dezembro d'aquelle anno, uma local do Commercio dizia: «O vapor Lusitania sahido hontem pelas 12 horas da manhã conduziu 118 passageiros, entre os quaes: Elisa F. Hensler, etc.»

Entrou, pois, na manhã do dia 21 em Lisboa a cantora. Devia levar na alma os lutos da natural vaidade ferida pela indifferença gelida d'uns pisa-verdes que honraram grandemente a mulher, menosprezando a artista. Dos frementes applausos, que a victoriaram quando assomou deslumbrante no palco, ao fastio com que as filas dos seus admiradores rarearam, vai a distancia que medeia entre a mulher honesta e a que permitte que lhe abram saldo de contas em que os applausos representam uma verba.

Eu não sei se Hensler, a cantora, escripturada pela empresa de S. Carlos, ao encarar a princeza do Tejo, que devia vestir de negro n'aquelle dia de dezembro, sentiu pavores da sua futura sorte, em theatro de jerarchia tão elevada para suas forças. Não sei porque frontarias de palacios lhe avoejou a vista absorta nas tristezas de quem ia sósinha, forasteira, sem o genio grande que estua no peito as palpitações do triumpho. Não sei; mas, se encarou lá em cima os palacios dos dous reis--com que olhos a esposa do snr. rei D. Fernando avistará hoje o Tejo, por onde entrára n'aquella manhã pardacenta de nebrina carrancuda de agouros esquerdos! Se ella então preveria um marido rei nas Necessidades, um enteado rei na Ajuda, e toda aquella Lisboa, e todo este reino, e nós todos ás suas plantas, nós todos, os bons subditos do rei que é marido, e do rei que é enteado, e d'ella, que vale mais que todos, por que, offuscando-os com a aureola da arte, estrellada das seducções da belleza, nos revelou que os reis deslumbrados eram apenas homens!