Quem tomou Lisboa aos mouros? Quem levou os arabes e berbéres de vencida até ás costas do occidente? Quem povoou a patria, quando as quinas se desfraldaram em Ourique? Quem coroou D. João I, esmagando as traições de Castella? Quem promoveu a restauração de 1640, e lutou pela independencia da patria?
Foi o povo.
Deixemos Aljubarrota ao condestavel.
Deixemos a restauração aos quarenta conjurados do palacio do conde de Almada. Que poderiam elles sem nós? O zelo, a coragem, o esforço, e o amor da patria só nos cabem a nós.--Vencemos sempre, porque eramos o povo.
Batemos com os contos das nossas lanças ás portas de Ceuta, de Tanger, e d'Arzilla, e os bastiões africanos cediam aos nossos esforços. Aportamos em Calecut, Cochim, Gôa, Malaca e Ormuz--e o Oriente dobrou-se á nossa vontade. Que importa, que os cabos de guerra tenham os louros das victorias, e das conquistas? A gloria é nossa. Fomos o instrumento civilisador, o soldado que morre pela patria, o portuguez, que cahe alanceado junto do seu pendão.
Para o condestavel, para Vasco da Gama, para Affonso d'Albuquerque, para D. João de Castro, para D. Francisco d'Almeida ha a chronica, ha o livro, ha as tenças, ha a narração dos feitos esforçados e valerosos, ha as recompensas da munificencia regia, e os brazões, que são a commemoração d'esses feitos, esculpidos nos portaes dos seus nobres solares.
Para o homem do povo, que pelejou ao lado dos mais corajosos, que batalhou onde havia mais perigo, que abandonou mãi, mulher e filhos,--para esse, ha a valla de finados, triste, e obscura--e a chronica emmudece, porque não é para peões, e villanagem, que foi creada a historia dos reis, e a Torre do Tombo, onde se guardam, e archivam seus feitos e memorias.
Para o povo ha o silencio.
Quando d'elle falla a historia, alcunha-o de sedicioso, barbaro e turbulento.
Para o povo ha o esquecimento.