A humanidade é uma idéa abstracta, que vive para a historia, nos vaidosos triumphos dos Alexandres, dos Cesares e dos Pompeus.

Quando um homem do povo cahe mutilado, pela arma homicida dos poderosos do dia, chama-se Socrates, chama-se Spartacus, chama-se Gracho, chama-se Galileu, chama-se Danton, chama-se Vergniaud, chama-se Armand Carrel, chama-se Gomes Freire, chama-se legião. Mas a historia atravessa estes periodos symbolicos da vida das nações sem commemorar estes nomes?

Para que?--Levantou já alguem o estigma que pesa sobre Catilina?

A historia divinisou Cesar, e applaudiu Cicero.

Rasgaram já os crépes que envolvem o busto de Robespierre, e a fronte de Saint-Just?

A França reclamou Bonaparte, e mais tarde victoriou o cossaco, que dos estepes da Russia vinha impôr leis e dynastias ao capitolio da raça latina.

E nós?--Aqui o veterano fez uma pausa. Levantou a fronte como se sentira o clarim das batalhas, e continuou em voz sumida e cavernosa:

--A nós deram-nos uma carta constitucional, que é como um foral--para não dizer carta d'alforria--a nós deram-nos uma mentira, escripta com o sangue do povo, no sólo sagrado da patria.

E o veterano calou-se.

Depois como despertado pelo ruido dos combates, como se aquella alma aspirasse a novas lutas, para sustentar os principios por que pelejára, ergueu-se do catre onde estava sentado, e rumorejou: E fallaes-nos de patria! patria aonde, e patria com quem? No Rocio em treze de março?--em Torres Vedras em 1846?--no Porto em 1851?--A patria é o sólo sagrado onde jazem as ossadas dos nossos avós. A patria é o local onde assenta o nosso lar domestico, onde vivem as nossas familias, onde está cravado o pendão dos nossos direitos. A patria é nossa por que derramamos o nosso sangue por ella.