Em seguida curvou-se para mim, que estava sentado no fundo d'este triste e miseravel quarto, e disse-me em phrases breves:

--Faça-me só um favor. É o unico que lhe peço. Como prologo d'esse manuscripto, publique este papel. É a meditação das minhas noites de insomnia. É o symbolo das minhas crenças. É o credo da minha religião politica. Morrerei contente.

Começa por este prologo o manuscripto do desembargador.

VISCONDE DE OUGUELLA.


O DECEPADO

Duarte de Almeida, o alferes de Affonso V, conheço-o desde a minha infancia, por m'o apresentar em verso o meu finado amigo Ignacio Pizarro.

Chorei por Duarte de Almeida, como se elle fosse meu avô, quando o infeliz, na volta de Toro, onde os castelhanos lhe deceparam as mãos, se lastimava assim pela bocca do poeta do Romanceiro portuguez:

Nem a espada, nem a lança
Posso nas mãos empunhar!...
Ai de mim! triste lembrança!...
Nem bandeira tremolar!...
Nem bordão de peregrino
Póde meu corpo arrimar!
Nem o meu pranto contino
Tenho mãos para limpar!...
Luiza! já me esqueceste?...
Talvez tu ora suspires
Por outro... se tal fizeste...
Coração! ah! não delires...
Morto já, tu me julgaste,
E se agora assim me viras,
D'aquelle a quem tanto amaste
Talvez agora fugiras.
Talvez nobre cavalleiro
Póde alcançar tua mão...
Queira o céo morra eu primeiro,
Não saiba a tua traição.
Que eu antes quero da morte
Ter gelado o coração,
Do que vir amor tão forte
Ter em premio a ingratidão.

Com estas e outras piedosas queixas ia o namorado alferes caminho do castello de Aguiar, onde vivia a castellã Luiza.