O leitor já me está dizendo que sabe o entrecho do romance de Pizarro: que a donosa castellã, julgando morto o seu amado, lhe fizera cantar os responsos em sumptuosos funeraes: que o cavalleiro, a deshoras, se annunciára na barbacã do castello; e, admittido á capella, encontrou Luiza a vestir o habito de monja: que o decepado, apertando-a ao peito, lhe fez vêr que estava vivo, e que ella, allegando o voto que fizera de professar, cahiu de encontro á eça, e morreu.

Termina o trovador:

Seu amante desditoso,
Mais desgraçado, viveu;
Mas o seu fim lastimoso
Nunca ninguem conheceu.

Bastantes annos--e que ditosos annos!--andei enganado pelo meu amigo Pizarro. Fui tres vezes ao castello do Pontido. Creio que já disse, não me lembra aonde, que encontrei entre as urzes da matta subjacente ao castello um espigão de espora sem rosêta, e suspeitei que ella houvesse sido do infausto amador da castellã. Figurou-se-me, ao cahir da noite, vêl-a no gothico balcão, voltada para os serros fronteiros, suspirar no alaude:

Adeus, serra do Mizio!
Adeus, val de Villa Pouca!
Adeus, castello sombrio!
Minha voz ouvi já rouca!

Estas impressões da primeira mocidade revivem quando a razão as impugna ao sentimento. De envolta com as minhas indagações historicas na triste sorte da princeza D. Joanna, chamada a excellente senhora, o vulto que mais me preoccupava era o alferes da bandeira, Duarte de Almeida, o heroe, o amante da castellã, o decepado cujo

..........fim lastimoso
Nunca ninguem conheceu.

Quanto ao seu fim, citava Pizarro um trecho de Duarte Nunes de Leão (Chronica de Affonso V) muitissimo desconsolador. Alli se diz que o bravo, depois de tamanha proeza, vivera mais pobre que d'antes. Este opprobrio nacional confirma-o modernamente o snr. Pinheiro Chagas, com estas phrases austeras: «O cavalleiro heroico sobreviveu ás suas feridas, e voltou a Portugal onde foi sempre conhecido pelo glorioso nome do Decepado. Mas, ó vergonha! o homem que assim tão briosamente se portára, morreu na miseria, porque nenhuma recompensa lhe foi dada, e porque nem se quer podia ganhar a vida pelo seu trabalho, logo que o haviam impossibilitado de trabalhar as suas tristes mutilações[5]

Por honra da patria e da humanidade, apresso-me a declarar que é menos exacto o que Duarte Nunes diz e o snr. Pinheiro Chagas encarece. Logo me justificarei com documentos.

Pelo que respeita ao romance de Pizarro, tão sómente dous elementos de verdade historica podemos aceitar-lhe: a existencia do alferes e a do castello de Aguiar. E o certo é que ao meu intelligente amigo não corria o dever de maiores exactidões.