Primeiramente direi do castello.

Lá está, e já lá estava assim, pouco mais ou menos, antes da fundação da monarchia portugueza. Quem o possuia ou governava, no tempo em que D. Affonso Henriques pleiteava nos arraiaes com sua mãi e com o imperador D. Affonso, era o rico-homem D. Gonçalo de Sousa, genro de Egas Moniz, e senhor da terra de Sousa. Traslada no tom. III da Monarchia Lusitana (pag. 112), fr. Antonio Brandão da Vida de Santa Senhorinha, codice áquelle tempo inedito, uma passagem que faz ao nosso intento[6].

Reza assim, melhorado na orthographia:

«Digo-vos que estando folgando em sua terra um principe nobre e cavalleiro d'este reino, o qual era mui privado d'el-rei D. Affonso, e havia nome D. Gonçalo de Sousa, mui poderoso, e todo conselho d'el-rei estava em elle; estando, como disse, folgando, chegaram a elle mensageiros dizendo que os inimigos lhe corriam a terra, e que lhe tinham cercado o castello d'Aguiar; o qual logo chamou suas gentes que pôde haver, e foi-se para haver de descercar o dito castello. E chegando aonde jaz o corpo d'esta santa lhe fez reverencia, e oração não lhe lembrou; e indo ainda em vista da igreja metade de um campo, esteve pegada a mula, em que ia o cavalleiro, a qual elle com esporas e pancadas não podia abalar, mas antes a mula quedava mais rija e pero se desceu d'ella e a não podia abalar; e, vendo elle isto, lembrou-lhe como passára pela igreja da santa sem lhe pedir benção, e mercê, e sem fazer oração, e por isso lhe detinha a mula; e, soffreando a mula para traz para se tornar á igreja, a mula logo tornou, e o cavalleiro fez sua oração encommendando-se á santa, e des i fez seu caminho, e com suas companhas descercou seu castello, e correu depois os inimigos, e tornou a sua casa com victoria, etc.»

O chronista Brandão, por mal informado, escreve que o castello de Aguiar da Pena se avista com as montanhas de Barroso. Estas montanhas distam seis leguas do castello, e entre ellas e o valle em que negreja a fortaleza gothica estão os cabeços da serra de Alfarella, e no horisonte mais elevado alveja villa Pouca de Aguiar. Acrescenta que o castello «é crespo de torres, baluartes e cubellos, e está fundado sobre a corôa de uma penha talhada de uma parte por natureza, que parece obra feita á mão,» etc.

Póde ser que no seculo XVII, quando Brandão escrevia, permanecessem ainda as torres e baluartes. O que ha vinte annos parecia ter robustez para seculos eram quatro alterosas quadrellas de alvenaria ameiadas com seus adarves, bastiões, e janellas gothicas sem lavores.

Recordo-me ter lido na Nova historia de Malta de José Anastacio de Figueiredo que o castello no seculo XIII pertencia á ordem hospitalaria de S. João de Jerusalem, e cita um aviso que obriga os lavradores circumvisinhos a carregarem pedra para reparos.

E não sei mais nada quanto ao solar da phantastica Luiza.

Agora vamos em cata do Decepado, depois que voltou de Castella. Encontramol-o na sua casa acastellada no seculo XII, que teve o nome de castello de Villarigas, no couto do Banho, hoje concelho de S. Pedro do Sul.

É elle o herdeiro de seu pai Pedro Lourenço de Almeida. Afóra aquelle castello, tem outro na quinta chamada da Cavallaria, honrada por el-rei D. Fernando em 1419, e onde os linhagistas enraizam o tronco dos Almeidas.