Passou, acaso, um dia por perto das ruinas de um casarão, reparou na pedra de armas que encimava um vasto portal de quinta, e perguntou de quem eram aquelles pardieiros.

O abbade, a quem a pergunta era feita, respondeu:

--São da fazenda nacional, que se está cobrando, ha trinta e dous annos, de uma divida antiga de impostos e respectivos juros e custas.

--E, depois que a fazenda nacional estiver embolsada, de quem é isto?

--Veremos a qual dos credores a lei dá a primazia--tornou o abbade.

--Acho que os donos d'estes pardieiros eram fidalgos, porque tem armas reaes á porta--volveu o brazileiro pouco versado em heraldica.

--Estas armas não são as reaes--explicou o padre--é o brazão de Pachecos e Andrades, muito illustres senhores d'este paço, que, em bons tempos, se chamou a honra de Real de Oleiros.

--Cahiram em pobreza?

--Sim, senhor; mas pobreza que tem uma historia interessante. Meu avô conheceu esta familia no galarim. Contava elle que o capitão-mór Pedro Pacheco estava em Lisboa, quando o marquez de Tavora, com os seus parentes, tentaram matar D. José, que era o amante da marqueza nova. Havia marqueza velha e nova, como sabe...

--A fallar a verdade, não sei isso muito bem--atalhou ingenuamente o snr. José Maria Guimarães--Então como foi lá essa pouca vergonha?