--Contos largos. A marqueza velha foi degolada, por não aceitar a prostituição da nora; a marqueza nova foi para um mosteiro bem regalado, em quanto o marido ia para a masmorra, e da masmorra para o cadafalso. Contos largos, amigo e snr. Guimarães. Vamos cá ao nosso caso. O capitão-mór Pedro Pacheco era muito de casa do duque de Aveiro; e, como eu disse, estava em Lisboa, quando o duque foi preso na quinta de Azeitão. Assim que o soube, fugiu, e não fez mal; porque foi procurado lá e aqui. Logo que chegou a esta casa, que era então um paço feudal, deu ordem á mulher que se preparasse e mais dous filhos menores para sahirem do reino. E, em quanto enfardelavam as bagagens, o capitão-mór mandou chamar meu avô, lavrador abastado, alferes de ordenanças, e muito seu amigo, para lhe entregar um cofre de pau preto com braçadeiras de bronze, cheio de peças. O cofre era tão leve ou tão pesado que meu avô, querendo erguel-o pelas argolas, gemeu. Lá por noite fora, pegaram os dous no cofre, transportaram-o á casa que ainda é a minha, e metteram-o n'um falso que ficava escondido pelas costas do leito de meu avô. Disse então o fidalgo ao depositario da sua riqueza que n'aquelle caixote estavam trezentos mil e tantos cruzados em dobrões e peças de ouro, e outras moedas muito antigas. Disse mais que a sua casa ficava exposta a buscas de quadrilheiros e de tropa, que era o mesmo que deixal-a franca aos assaltos dos ladrões. Por tanto, confiava de meu avô o seu dinheiro, sentindo não ter mais valiosas cousas que confiar á sua honra.

--Trezentos mil cruzados!--murmurou o snr. Guimarães, esbugalhando os olhos--era bem bom d'elle! E depois?

--O fidalgo foi para Hespanha, e para Inglaterra, onde tinha um seu parente embaixador, e por lá esteve alguns annos. N'este comenos, meu avô pegou de adoentar-se de molestia ethica, e escreveu ao capitão-mór, pintando-lhe o seu estado, e pedindo-lhe que viesse ou mandasse tomar conta do cofre. O fidalgo appareceu aqui uma noite com o maior resguardo, e metteu-se no seu palacio, confiando-se de um criado sómente a quem deixára a feitorisação das terras. De madrugada, mandou chamar meu avô, passaram juntos o dia, e de noite trouxeram ambos o cofre. Contava meu pai,--parece que o estou ouvindo,--que meu avô muitas vezes lhe dissera que o fidalgo não declarára onde tencionava esconder o thesouro; mas positivamente lhe dissera que o não levava para Inglaterra, já por temer ladrões, já porque não precisava gastar mais que os rendimentos da sua grande casa.

Meu avô morreu d'ahi a mezes; e o capitão-mór voltou para a patria, no anno de 1777, quando D. José morreu, e o marquez de Pombal foi desterrado.

--Essa não sabia eu!--atalhou com civico enleio o snr. Guimarães.

--Que é que v. s.a não sabia?

--Que o grande marquez foi desterrado! Quem foram os marotos que...

--São contos largos, snr. Guimarães. Vinha eu contando que o capitão-mór voltou, já viuvo, com dous filhos barbados, muito extravagantes, sem religião de casta nenhuma, criados entre hereges, destemidos, e levadinhos de todos os diabos. Ainda não ha muitos annos que morreram dous velhos do seu tempo que me contaram as malfeitorias que elles praticavam. Batiam a matar em todas as ordenanças que por ordem superior lhe tinham entrado em casa á procura do pai. Deshonestavam todas as cachopas d'estas tres leguas em roda. Em fim, amarguraram a velhice do pai, que era um santo homem, a ponto de lhe roubarem as pratas porque elle lhes não dava quanto dinheiro pediam. Finalmente, o velho morreu de repente em 1782, segundo reza o epitaphio que está na igreja de Refojos, convento que elle e seus ascendentes haviam beneficiado...

--E os trezentos mil cruzados?--interrompeu o brazileiro.

--Lá vou já. Assim que o pai se finou, os dous filhos abriram todas as gavetas, levantaram taboas, desladrilharam as lojas, escavaram debaixo dos toneis, escalavraram os forros, e nada toparam. Revolveram todos os papeis, a vêr se encontravam alguma indicação do dinheiro; e, com effeito, em um papelucho mettido n'uma carteira vermelha, acharam isto, que meu pai leu tambem: Póde ser que a pobreza vos não corrija; mas a riqueza de certo vos faria tigres. Eu não morrerei com o remorso de vos deixar nas mãos o peor instrumento dos perversos, que é o ouro não adquirido com o proprio suor. Tomaram-se de raiva, e romperam direitos a casa de meu pai, perguntando-lhe pelo dinheiro do seu.