--Não ha duvida--respondeu meu pai--que n'esta casa e n'aquelle falso esteve um cofre do snr. capitão-mór; mas, alguns mezes antes de dar a alma a Deus, meu pai, que era honrado, entregou o cofre a quem lh'o dera a guardar.
--E depois?--bradaram elles.
--Depois, nada mais sei, senão isto que seu paisinho me repetiu muitas vezes.
--Nós havemos de achar os ladrões.
--Pois é procural-os--disse meu pai.
Volveram a casa, e amarraram de pés e mãos o velho feitor do capitão-mór, determinados a não o desatarem sem elle denunciar a paragem do thesouro; porque o velho declarára que ninguem, senão elle, soubera da vinda do capitão-mór á patria, em quanto vegetou el-rei D. José, e o marquez de Pombal reinou. O feitor deixava-se martyrisar e morrer, ou porque realmente nada sabia, ou porque esperava que a final o deixassem. O caso é que, depois de solto, desappareceu d'estas terras, e nunca mais houve novas d'elle. Muita gente suppoz que o feitor levou os trezentos e tantos mil cruzados; mas meu pai, que o conheceu e teve em conta de muito honrado, affirmou que o dinheiro estava enterrado. Não sei; mas o desapparecimento do criado confidente do capitão-mór, a meu vêr, deixa suppôr que a estas horas, lá por esses reinos estrangeiros, vivem muito ricos os filhos do feitor. Deus sabe o que foi.
--E então os dous filhos do capitão-mór ficaram pobres?--tornou o snr. Guimarães.
--Pobres?! não, senhor. Quem tem sete quintas, que rendiam cinco a seis mil cruzados, que ha oitenta annos valiam dezoito mil cruzados de hoje em dia, não é pobre. O que elles fizeram foi tratar de se empobrecer. O morgado por aqui ficou, entretido com mulheres, galgos, caçadas, cavallos, feiras, jogo e valentias. O outro, que teve duas quintas de patrimonio, reduziu-as a moeda sonante, e foi para Lisboa requerer não sei que recompensas a D. Maria I, pensando que o ser seu pai amigo do duque de Aveiro, lhe dava direito a ser galardoado. Ora, se elle soubesse que a filha de D. José negou ao desventurado, ao innocente e quasi mendigo D. Martinho de Mascarenhas os bens de seu pai, duque de Aveiro, não iria allegar como cousa digna de premio o affecto do capitão-mór ao regicida suppliciado.
--Conte-me lá isso por miudos...--atalhou o brazileiro que não lêra a Historia portugueza do snr. Viale.
--São contos largos. Vamos primeiro á historia do ultimo senhor da honra do Real de Oleiros--respondeu o abbade, e continuou: Não sei onde nem quando morreu Sebastião Pacheco de Andrade, o filho segundo do capitão-mór. Ouvi, porém, dizer que morrêra novo, pobre e deshonrado. Quanto ao morgado, sei que elle casou com a menos digna das suas concubinas, já quando não toparia menina honesta que aceitasse o fidalgo de Real de Oleiros. Christovão Pacheco, apesar da libertinagem e desperdicio, ainda gozava o que se chama decente mediania, quando sahiu d'este mundo, antes dos cincoenta annos. Teve um filho ante-nupcial da criada com quem casou. Este conheci eu mui de perto e em conflicto muito deploravel, como lhe contarei. O pai, que desprezava frades, e zombava da religião, mandara-o educar em religião e com um parente frade da ordem benedictina. O rapaz alegrou-se grandemente ao noticiarem-lhe que o pai era morto e elle herdeiro. Veio aqui, por ahi esteve dous annos socegadamente, olhando pelos bens, posto que debaixo de tutela; e, quando orçava pelos dezenove annos, tão grandes amostras dava de homem de bem que se lhe offereceu para esposa uma senhora de linhagem illustre e dotada com vinte mil cruzados. Emancipado pelo casamento, apossou-se do casal, desempenhou parte das quintas hypothecadas, e manteve bons creditos por espaço de alguns annos.