Em 1832 era elle ainda muito rapaz, e já então vestia a farda de capitão de milicias. Esteve no cerco do Porto, onde consta que procedera valentemente. Porém, no fim da guerra, os bons costumes com que sahira d'esta casa por lá ficaram. O homem voltou tão diverso, tão estragado na moral, que já ninguem o via e ouvia que se não lembrasse do pai. A esposa não sei se por santa, se por peccadora, fugiu-lhe com uma criança de cinco annos para a casa d'onde viera; e elle, hypothecando os bens já deteriorados com as prodigalidades da vida militar, levantou muitos contos de reis, e estabeleceu-se em Lisboa.
Desde 1836 a 1843, o seu viver na capital deu brado por aventuras amorosas, como lá dizem os salteadores da honra das familias. Pedro de Andrade, que assim se chamava, como seu avô, era um homem gentil, bem feito, galhardo, e muito airoso. Tinha as seducções de Satanaz feito homem. A corrupção de Lisboa era grande, e elle ainda maior; mas desgraçadamente, o maldito empestou muita menina innocente, e abriu muitos abysmos aos pés das virgens que pareciam ter postos no céo os olhos contemplativos.
--Que grande maroto!--disse o brazileiro.
--Em 1843, depois de uma ausencia de seis annos, appareceu aqui, de repente, Pedro de Andrade, e procurou-me a fim de me propôr a compra dos bens que ainda não estavam captivos de dividas. Eu desculpei-me com a falta de dinheiro, e outros aceitavam a proposta, se a mulher assignasse os contractos. N'este entretanto, recebi de Lisboa certa gazeta de que era assignante, onde li uma noticia que me abalou dolorosamente. E, estando em minha casa Pedro de Andrade, perguntei-lhe se tinha noticia do triste successo contado pelas gazetas.--Qual successo?--perguntou elle. «Eu lh'o leio» disse eu; e visto que estamos á minha porta, queira o snr. Guimarães entrar, que eu lhe vou lêr a gazeta, que Pedro de Andrade ouviu com inalterado semblante.
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O brazileiro entrou na saleta do abbade, que tirou da estante dos seus livros a Revista Universal Lisbonense de 1843; e leo, a paginas 23, o seguinte:
«A POMBA E O ABUTRE
«Quasi todos os papeis publicos transcreveram do Portugal Velho o caso de uma donzella fugida do paço real. Levantaram sobre isto altos clamores contra ella, contra o seductor, contra a perda da proverbial gravidade do palacio portuguez. Sentimol-o o calamos.--Era assumpto melindroso; para relatar e sentenciar careciamos ainda de evidencia. Hoje suppômo-nos habilitados para ratificar e completar a narração de um successo que, devida ou indevidamente, já cahiu no dominio do publico, e não é possivel extorquir-se-lhe da memoria.
«No palacio velho da Ajuda vegetam ainda umas cincoenta ou mais solitarias, que, opprimidas dos annos e das molestias, recebem da caridade da soberana o pão pelos serviços, que outr'ora prestaram ás rainhas e princezas suas ascendentes;--são os ornamentos partidos e desfigurados de um seculo, que desabou para nunca mais ser reconstruido.--Todas estas mulheres são tristes como reliquias de tempos festivos, saudosas, ou antes, saudades ellas mesmas:--a presença de todas e de cada uma, aggrava a cada uma e a todas ellas a melancolia do crepusculo da morte, que já lhes vem anoitecendo.--Todo o reboliço, todas as quotidianas transformações materiaes, moraes e politicas da visinha capital, onde já foram vivas, moças e brilhantes, ou não chegam alli, ou só chegam como uns contos vãos e longinquos, como sonhos de cousas passadas em outro planeta: ¿que tem ellas que vêr no berço que se apparelha para uma nova idade?--ellas, que já pendem para o sepulchro, a contemplar no fundo d'elle tantas cousas louçãs e vivazes, que lhes pertenciam!
«Entretanto no meio d'este palacio de tristezas volteava ainda um raio de sol; um arbusto florejava purpuras no meio d'este cemiterio; uma avesinha cantava primavera entre o desconsolo d'estas ruinas; uma viração deliciosa fazia ás vezes susurrar agradavelmente estes musgos resequidos. Tudo isto era a joven Maria, lindeza de 18 annos, lindeza corporal como poucas, lindeza de espirito como ainda menos, lindeza de coração como quasi nenhuma, sobrinha e companheira de uma d'estas velhas, companheira e amiga de todas ellas. Maria, era realmente o feitiço, a Vida e o encantamento d'aquelle retiro sem porvir. Toda a casa a amava: era uma paga de divida; Maria queria-lhe muito, quasi que alli abrira os olhos, pelo menos outra nenhuma lhe lembrava; sob aquelles tectos brincára desde a idade de tres annos; entre aquellas cabeças encanecidas se fôra coroando a sua de longas tranças louras: entre o crescer de tantas rugas se desenvolveram e aperfeiçoaram as suas graças; entre o progressivo decahir de tantas prendas e esperanças como as folhas verde-pallidas que em pomar de outomno se despegam uma a uma, os seus talentos naturaes por uma desvelada educação, que a munificencia da snr.ª D. Maria I proporcionára a sua tia os meios de lh'a dar, tinham chegado ao seu maior auge.