«Maria do Carmo reunia ás prendas manuaes proprias do seu sexo, um lêr e escrever primoroso, noções e gosto de litteratura, mórmente da franceza, em cuja lingua era mui versada, e musica, merecendo no piano as honras de mestra, e por corôa de elogio verdadeiro, os seus costumes eram puros e o seu coração religioso: nas orações que todas iam quotidianamente depôr aos pés do altar, as d'ella deviam rescender mais a innocente alegria que a temores ou remorsos.--A 25 de junho orava no côro com sua tia quando o relogio dos paços bateu as 6 da tarde. Levanta-se, pede licença para deixar o restante para depois, e ir entregar--que o prometteu--um debuxo de bordados a uma sua amiga fóra da casa.
«Foi: correram horas, e não voltou.
«Começaram e cresceram cuidados: mandou-se á busca por todas as partes: passou o serão, passou a noite, e passaram tambem dias, sem que a tornassem a vêr, nem a ouvir d'ella nova alguma.
«N'essa tarde alguem se lembra de ter notado uma sege parada debaixo da arcada do paço. E um morador da casa acrescenta que, perto da noite, achando-se no caes do Sodré, vira chegar uma sege á porta de uma hospedaria, e um homem de chapéo branco apear uma menina, que lhe pareceu ella.
«Devolvidos quatro mortaes dias, chega no domingo um gallego com uma carta para a consternada tia:--entrega-lh'a em mão propria, e ajunta, havel-a recebido de uma menina mui linda, que lavada em lagrimas e afogada em soluços lhe recommendára fosse leval-a correndo, e lhe trouxesse signal de ter sido recebida. O conteudo d'esta carta ninguem o soube, mas parte d'elle facilmente se póde presumir.--Ás nove horas d'essa mesma noite viram-se sahir pela portaria dous vultos rebuçados, que por mais que a porteira os interrogasse, partiram sem dar resposta. Á hora e meia da noite os mesmos dous vultos vieram bater á porta, trazendo entre si amparado e quasi em braços um terceiro, que ninguem reconheceu. Abriram uma porta, que havia muito não servia, e que dava passagem para a pousada da fugitiva, e entraram.
«Pessoa do sitio por quem isto soubemos, nos acrescentou, que o estado de Maria na seguinte manhã, segundo lh'o descrevêra quem acabava de a vêr, cortava o coração. As suas tranças louras e espessas tinham desapparecido. O seu rosto pendia pallido e esmorecido. Duas fontes corriam dos seus olhos. A sua dôr via-se e era terrivel porque era muda.
«As suas o occupações desde então teem sido orar e chorar: com isto leva no oratorio as horas do dia e da noite, abraçada com a imagem da consoladora dos afflictos, beijando-a nos pés, nas mãos e no rosto como filha a sua mãi--como filha prodiga, que procura, á força de se restituir toda, reconquistar o coração materno; como se coração materno se apartasse nunca. O pai aggravado perdôa, a mãi não, toda ella foi sempre amor, e o amor não sabe senão amar.
«A unica pessoa, que além de sua tia, a tem visto, é o medico, alma sensivel, de quem recebe os soccorros mais assiduos e delicados. Entretanto o mal que a mina é grave. Quasi privada do alimento e do somno, os seus dias parecem ameaçados de um fim prematuro. Se a violencia mesma da sua dôr lhe não limitar em breve a duração, outro perigo pouco menos cruel que o da morte, parece ameaçal-a. O pranto continuo que afoga os seus olhos, receia-se que venha por ultimo a lh'os apagar, e que a pobresinha que, ainda ha pouco, era o raio de sol de toda a habitação, venha ainda a ser, mergulhada em trevas e sobrevivendo a si mesma, um objecto de profunda e esteril compaixão para tantas infelizes, a quem ella, pouco ha, repartia alegrias e emprestava mocidade.
¡¿E agora quem a condemnará por um erro, cuja origem e historia nos são desconhecidos?! ¿quem a apedrejará entre os braços, sob o manto e sob os olhos da rainha dos anjos, que lhe deu o seu nome, lhe chama filha sua e com a vista serena e amorosa lhe está apontando para as alturas?! ¡¡¡Que delictos e crimes (quanto mais erros)! deixariam de se lavar com tantas lagrimas!!! ¡¡¡E ha entretanto aqui um homem, talvez entre nós, talvez festejado e respeitado--um homem, que ella generosa não nomeia, não nomeará nunca--um homem, cujo rosto mais duro que o de Caím se não transformou, se não tingiu de repente na côr de sua alma para o denunciar, como sacrificador da innocencia, da virtude, da formosura, e do amor, de um amor irresistivel, inspirado por elle, e que a elle sacrificava tudo até a vida,--tudo até o porvir--tudo--tudo até a honra!!! ¡¡¡Ha ahi um homem d'estes!! ¡Ha-o sem duvida! e se as justiças o descobrissem, este homem receberia uma pena: menos affrontosa que a do ladrão assassino... Este homem não havia de ser mandado por todas as cidades e villas do reino de braço dado com o carrasco, para ser atado a cada pelourinho, escarrado no rosto por todos os homens e mulheres, e esbofeteado depois pelo seu menos infame companheiro de jornada com a mão esquerda. Não: que importa o que padece uma mulher? Não crêsse nas palavras de quem a fascinára; não fosse moça, innocente e amante; não fosse mulher. As justiças da sociedade teem mais cousas em que pensar. ¿E de mais não se vê isto todos os dias? Não são conhecidos muitos outros que tambem matam assim o tempo com estas caçadas amorosas? ¿que o confessam com vangloria e que em companhias mui luzidas são por isso admirados e invejados! Tratemos dos interesses materiaes. O restante são chimeras, são fanatismos, são miserias, indignas da attenção de legisladores, e dos homens illustrados de 1843.»
Concluida a leitura, o abbade proseguiu: