--Ouvida a historia, o fidalgote sacudiu a poeira das calças com um chicotinho de baleia, e disse: «São vulgarissimos esses casos em Lisboa. O que a mim me espanta é que a imprensa vista o habito de Tartuffo, e sáia ás praças a prégar contra a corrupção que ella promoveu com os seus romances, com as suas philosophias, com as suas theses de liberdade, e com a perseguição de escarneo e de fome feita aos apostolos da sincera moralidade.»
Discursou largamente n'este sentido, e despediu-se, deixando-me inclinado a dar-lhe razão.
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Passam-se tres dias:--continuou o abbade--era meia noite de 2 de agosto do mesmo anno de 1843. Recolhia-me á igreja de ter ministrado a extrema-unção a um moribundo, quando ouvi dous tiros a pouca distancia, e d'ahi a minutos o alarido de muitas vozes, gritando «homem morto!»
Sahi ao adro, e encontrei pessoas que já vinham chamar-me para assistir aos paroxismos de Pedro de Andrade que estava mortalmente ferido á porta de sua casa.
Quando cheguei, já o haviam transportado ao leito. Estava ainda vivo. Assim que me viu, acenou-me com anciedade, apertou-me convulsamente a mão, e segredou-me: «Quero confessar-me, que vou morrer.»
Escutei-o por espaço de hora e meia; as phrases eram cortadas por gritos de agonia; ambas as balas lhe estavam dilacerando as entranhas do peito; e, ainda assim, aquelle demorado arrancar da vida me quiz parecer uma delonga providencial para que o grande criminoso tivesse tempo de penar e chorar suas culpas. Expirou com todos os sacramentos, pedindo-me que, em nome d'elle, pedisse perdão a seu filho e a sua mulher.
O moribundo, quando me revelou o seu derradeiro delicto, rogou-me que désse publicidade ao crime e ao castigo a fim de que a sua desgraça podesse aproveitar aos centenares de delinquentes que lhe haviam dado o exemplo do vicio e da impunidade. E, por tanto, não escrupuliso em lhe dizer que o seductor da infeliz Maria do Carmo havia sido Pedro de Andrade, e que os vingadores da abandonada menina deviam ser seus parentes, posto que o assassinado os não houvesse conhecido, e lhes ouvisse apenas dizer, antes de desfecharem as clavinas, que lhe traziam saudades da prostituida senhora do paço da Ajuda.
--Com effeito!--observou o snr. Guimarães--essa historia arripiou-me os cabellos!... V. s.ª ha de emprestar-me essa gazeta que eu quero copiar esse caso! Diga-me cá: e o filho d'esse desgraçado?
--O filho do desgraçado, que tinha então onze annos e estava com sua mãi, póde dizer-se que ficou litteralmente pobre. Os credores e a fazenda nacional disputaram-se a posse do espolio. O rapaz, quando chegou á idade de tomar conta da honra de Real de Oleiros, convenceu-se que lhe era mister trabalhar para não morrer de fome. Os parentes de sua mãi, posto que abastados, não o protegeram, e tornaram-lhe pesada a esmola do pão e da cama. Um dia, o brioso moço sahiu com sua mãi da casa que lhe amargurava o bocado, e foi habitar um casebre nas visinhanças do escrivão, que o fizera seu amanuense, e lhe dava doze vintens por dia. V. s.ª conhece-o. É aquelle Alvaro de Andrade que tem lavrado as escripturas de compra de propriedades que o snr. Guimarães tem adquirido...