Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o espirito.

Resolvi ir á feira da Ladra.

Ás terças feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano, na selvagem e cynica disposição dos objectos que constituem o mercado.

Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e sumptuosos caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros, aprendem-se nas Mil e uma noites, adivinham-se nas chronicas dos nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um mytho. Para nós—pobre povo—empurrado para as vagas espumosas do oceano, pelas civilisações que se apossaram da Europa, e que nos varrem sem piedade nem dôr para a Africa carthagineza, como se nós foramos os numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas.

E o que somos nós? Deus o sabe.

Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico, devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaçam thronos e proclamam republicas.

«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana, n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das raças e linguas orientaes.

As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A graça, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz para apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de reminiscencias tão pagãs.

E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da corôa, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.

Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal francez, tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal artigo—esculpido hoje nos bronzes da historia—com esta phrase singela e prophetica: Pobre França, pobre rei!...