Se eu dissera aqui: pobre Portugal!—Não digo.
Entrei na feira da Ladra.
Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna, levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.
Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo buxo, caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das possessões indo-britannicas.
Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.
Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:
«Lasciate ogni speranza, voi che entrate.»
Achava-me em presença do inventario de uma capital.
Examinei:
Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente contornado nas fórmas elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina de faiança, que fôra a ultima aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de prateleira, que fôra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de parvenu, um saleiro da modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e concertos com que o expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de verdura e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos devaneios da côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das fórmas e no primor das folhagens, as creações elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japão equilibrava-se sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se traduzia a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos, com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.