Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados de varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a óleo, em vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados, no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um candieiro de latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da lampada a cuja luz Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de direito criminal. Após estes primores archeologicos desenrolava-se uma fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas, tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha, talvez a ultima illusão dos seus possuidores. Sic transit gloria mundi, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros dourados dos triumphadores romanos.
Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do atheniense Sophocles até ao sóco plebeu da comedia vulgar, onde se expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de todas as civilisações.
Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente lustrosa—despojo venerando de algum desembargador da casa da supplicação, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em variados matizes, lençoes de Bretanha, finissimos, arrendados em arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte, abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de charão escarlate da phantastica China, onde aves e dragões dourados surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do artista, através de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as côres do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festões de grinaldas de cobre dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes inspirações de Benvenuto Cellini.
Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras, formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth. Envolvia-se n'um cafran ou burnus—uma especie de farrapo de panno, que lhe cingia o tronco, deixando solta a cabeça, que apparecia envolta n'um lenço asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baça e livida, como um pedaço de cera amollecido entre os dedos.
Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopéa arabe, uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação feita ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor!
A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas allucinações e devaneios acusticos.
Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?
A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas phrases, que não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal, algum preito a Satanaz,—e depois accentuou em voz clara e cadenciada as seguintes palavras:
—Dê-me dez libras, e leva-o de graça.
—E a chave?