—A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha. São comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O desembargador João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito nos ultimos annos da sua vida.

—Conheceu-o?

A velha sorriu-se.

A ironia d'este sorriso tinha não sei que reflexo dos lampejos do fogo infernal.

—Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu vendo os moveis para comer.

Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua curta narração.

Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa como um mysterio.

Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:

AO LEITOR

Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove. Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes elles se teem mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época, que não é a minha. Onde bastar o esboço abandonarei a palheta, e usarei do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não tenho pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth, nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs, Favres e Marats hei de pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e só com ellas povoar