O arcebispo de Mitylene, D. Domingos José de Sousa Magalhães, doutor em canones, jurisconsulto eminente, orador esclarecido tanto no magisterio universitario como no parlamento, ensandeceu em 1858, quando contava quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em Villa Pouca de Aguiar, na casa onde havia nascido.
Motivou a demencia d'este douto prelado a suspensão das funcções de provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D. Guilherme I. A causa da suspensão, pleiteada acerbamente por parte do arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta pugna um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e em variada litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do arcebispo, e contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por parte do patriarcha, o conego João de Deus Antunes Pinto e o reverendo academico Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores.
Como quer que fosse, o arcebispo de Mitylene perdeu na brava luta a razão; e, ao parecer de illustrados juizes da sua justiça, foi a iniquidade que matou o robusto athleta.
Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a esperança de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva condensação da escuridade á volta d'aquella alma triste, lethargica, absorta na contemplação estupida das lagrimas dos parentes e amigos.
Do torpor silencioso e abstrahido passou ás manifestações irrequietas do delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze annos, nas suas escuridões interiores.
Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua familia.
Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de anno, mez e dia.
Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de Portugal, umas vezes; pontifice outras; e não é raro enxertar-se em jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com os dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que fôra um dos mais alumiados da sua época, admiraveis lanços de linguagem, de conceito e até de razão. Que espantoso contra-senso! É que tambem nos delirios ha raptos de luminosas visões.
Os seus escriptos são tratados, theses, dissertações cada qual com seu titulo, compostos desde o segundo até ao penultimo anno da demencia. Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas.
Eis-aqui os titulos: O gigante—Os privilegios da corôa dynastica—As cinco questões de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito na universidade—A missão divina—A chronica real—Da santidade do direito—Cemiterio protestante—A tyrannia impossivel—O mesmo Senhor fez os seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia—O impassivel—O erro commum—Os tres fundadores—O cordeiro—A surpreza—O burrinho e o menino dos protestantes—O templo—O penhor e a hypotheca, ou o juro e a herdade—O titulo da realeza—O parocho—O demonio tentador—A espada de S. Bruno—O enigma—Mascara de ferro—O sonho—D. Maria Caraça Bonaparte ou a burrinha protestante—O viatico da eternidade—A estrella do norte ou a misericordia dos mares—A vacca—Apologo—A catastrophe.