Estes manuscriptos comprehendem sessenta cadernos em folha. Em poder da familia do finado arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto de doze annos. Tirando ao acaso um de entre os cadernos cosidos com algodão verde e escarlate—para dar ao leitor a manifestação escripta de uma alma que esvoaça á volta dos residuos ainda bruxuleantes da sua razão—-aqui vai a
CATASTROPHE
Affonso, por sobrenome o Sexto, filho do primeiro rei, que usurpou o titulo de duque de Bragança chamado D. João IV, foi deposto de sua primogenitura por seu irmão D. Pedro, e conservado em prisão e exilio de toda a vida. D. Pedro não podia ser mais perverso. As circumstancias atrocissimas d'este inaudito escandalo não estão bem explicadas nem eram bem conhecidas dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque não souberam, ou porque não poderam averiguar o intrincado drama, deram ao successo o nome de «catastrophe». Os hespanhoes limitaram-se a negar o que era patente e publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e enredo occulto, nada explicaram na sua «anti-catastrophe», documento mediano e mal traçado para o fim, e para o grande empenho da causa e da questão; tão inferior e pueril que a desvirtua e degrada apoucando o assumpto para diminuir a impressão, ou para distrahir e desviar a attenção do horror da catastrophe.
Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta vergonhosa historia da usurpação; as suas monographias são como memorias de encommenda que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar algum erro ou para afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim da historia não curam nem tratam: porque a prevenção da historia é o erro, e com este rumo ninguem póde navegar nem progredir. Attribuem geralmente os protestantes aquelle sinistro ao partido cardinalicio de Roma, segundo o seu costume e petulante ousadia de calumniadores, que commetteu o delicto para o assoalhar e publicar por um lado attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vão por outro lado desfigurando sempre em vão alguma memoria de maior horror, ou alguma imputação mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso empenho confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade é como a luz mais forte, que penetra através dos maiores obstaculos em toda a parte onde estiver encerrado o homem pela maior tyrannia para alumiar o captivo, e até para esclarecer o cadaver, que geme debaixo da lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto não revela o enigma da sua escura sepultura.
A analogia dos factos é o melhor meio de descobrir os mysterios da historia. Para escrever a dos crimes ainda até o presente não achou a boa critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A Divina Providencia dá causa á catastrophe para punir a atrocidade da injuria; o demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o facto permanece, o som repercute e sôa em outro ponto e orgão, ás vezes só no echo até á altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir no decurso dos seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e medonho ou funesto e assustador até para o demonio que o gera e produz. Sôa do orgão a tuba, e não é a mão do homem que fere a tecla, nem a musica e pensamento do seu compositor que produz a melodia. Devia o homem vêr no arcano a sciencia divina, que deu ao ar modulado pelo instrumento a euphonica sympathia dos sons e o gentil devaneio do mais accorde accento.
O orgão da historia não é um instrumento de imbecis, e mentecaptos que julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito verdadeiro da sua maravilhosa impressão: deixai o orgão ao templo catholico; porque só n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos de maior vergonha apenas cabe a profana chula de tabernal comedia, e a ironia da musica. A arpa é instrumento real, a lira só a tange a poesia e a verdadeira inspiração que o Senhor concede ou nega ao cantor pelo moto da trova e pelo pensamento da sua religião e virtude. A historia verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e pedinte—eis o dilemma unico da sciencia, e o programma que o escriptor competente sempre encontra diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a que se propõe e persuade: a maior parte dos eunuchos só presam o devaneio do canto pelo sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as suas abominaveis e depravadas paixões. São homens, que se deixam mutilar sem possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra não exaltam o tiple do seu desenfado sem sonhar com opiparo e somnolento banquete; e por isso todas as suas lôas acabam em comer.
O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os homens do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e profissões só pelo benigno e precioso metal que auferem e adoram—e d'estes é sempre o maior numero; o actual enche de eunuchos todos os theatros e d'histriões a comedia d'aldêa, e a sua nobreza de tamanco. Que mais diremos d'este reprobo e amphibio meteoro, senão que jámais deixa de se converter contra o inventor e mais obstinado sectario? o ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga, ou machina de pura digestão, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho herdeiro dispor o cemiterio da familia, que já se sabe é a familia dos eunuchos sempre a mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem proletario.
Queremos dizer, que todos estes hão-de sahir a campo com os vozeirões para aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo ha de rir do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos, e fazer duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter necessidade de fugir da sua sanha, e sem accelerar o passo do seu domestico e providente animal. Não estranhemos o som do orgão mais vil e desentoado, que vai ás costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e decifrai os signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do que as memorias que deviam retratar os seus pensamentos de historiador, e apenas contém a sombra da sua ignominia e proterva hediondez e peçonha.
Possuir ou não possuir a casa de senhorio de Bragança sempre foi synonymo de ser ou de não ser rei; mas possuir a casa sem possuir o direito é dar pasto á ambição oligarchica e á falsa platêa de comedia; é o mesmo que entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais desleal e traiçoeiro corrilho e atroz sequella. Este é o unico partido que póde formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a usurpação; os seus meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais desleal e machiavelica, e o perpetuo enredo do engano; o estribilho protestante, o punhal do forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega da patria perdida ao mais ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do demonio. A sua authoridade sempre falsa não impera, pactua em toda a parte com os maiores scelerados, e consegue fins mediocres e resultados de dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina roubam-se uns aos outros.
Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. João I: a sua mais negra, e mais atroz usurpação foi a da casa de Bragança, mas primeiramente o rei não pôde usurpar, nas provincias nem em Traz-os-Montes, em segundo lugar a usurpação veio toda a pertencer aos caudilhos, que o governaram e dominaram e á sua lei mental e miseravel recurso; que só pôde communicar a seu filho com o mais tetrico e deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor pela abominavel traição de Coimbra. Por esta fórma D. João não reinava, e o cardeal romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa de Bragança, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza faziam entre si os falsos possuidores dos bens para não soffrer a furia real, que era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado deixava-se vencer, e cahia ao chão, como Grão Lamma, depois de opiado pelo melhor tabaco e café de Moca, e pelos prazeres reunidos do seu abominavel harem.