A lei mental foi uma medida deficientissima para o seu fim, mas prova até que ponto é verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O padre santo durante o interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens á casa de Bragança;—disse então a abominavel facção: entregar os bens é o mesmo que entregar a corôa;—e logo faziam um processo com grande numero de testemunhas para provar que não havia successor á corôa, e que D. João I por esta falta de successor fôra justamente acclamado. Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria protestante, que aitribuiam a João das Regras, e davam ao falso documento o cunho das côrtes de Coimbra, aonde não foi nem podia ser apresentada sem grande irrisão e escarneo de todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque de Bragança para desmentir todas as memorias, mas tal é a audacia de todos os herejes e fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa fundar-se na apparencia do erro. Este João das Regras não existiu; o nome é de um anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou, irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que usurpava os bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta figura só para desfrutar o rendimento da casa de Bragança. Todos os histriões do torpe magnetismo das façanhas da estrada orçam pelo mesmo vulto e dimensões; os seus meios são analogos, a sua cobardia proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa tyrannia. Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes serviços que fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr obeliscos devidos ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os francezes, foi para entregar e vender a patria e os penates, os templos e a sua santidade, as mulheres e todo o verniz do rosto vil e infame do idolo das suas abjectas heresias e traições: se algum militar brioso e valente do exercito appareceu no Brazil foi vendido tres vezes, ludibriado, atraiçoado e escarnecido, porque não assignava os mais falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos que preparavam e reuniam para a historia de todas as façanhas e proezas do nosso exercito peninsular.

Porque razão não se escreveu ainda este vergonhoso commento da usurpação? porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos seculos modernos, e o infame hereje e protestante não póde attribuir ao Senhor a menor virtude nem hão de conceder ao povo a correspondente sombra de galardão. Na época de D. João I o povo venceu as batalhas, o rei gemeu na sua escravidão de toda a vida, os usurpadores conspiraram, escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o principio Divino triumphou, porque a luz da verdade é a luz da Providencia, e não ha obstaculo na força humana, que possa occultar a verdade santa que calou na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do novilho.

A casa de Bragança venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel, e deixava entregue ao tristissimo evento das successões para se realisar no decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido usurpador é como a familia dos flamengos e dos ciganos—prova e reprova todas gerações e partos suppostos como põe e dispõe os seus monarchas pela ultima arma do veneno e do punhal. D. João I por fim da sua vida estava como o condestavel atormentado pelos remorsos; este deixou os bens usurpados aos outros aventureiros, e pediu esmola á porta do convento com bastante industria e sagacidade; aquelle seria morto na mesma possilga em que vivia, se tentasse restituir a corôa; porque a verdadeira estava na cabeça dos ambiciosos ministros da sua historica realeza.

A lei do remorso é a mais imperiosa que se conhece; ao pé da forca, no banco dos réos, no ultimo transe de vida, ou no meio da mais funesta desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe como o furacão através dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca as arvores com a sua tormenta e fracasso. D. João I fez uma confissão, e morreu;—quem estrangulou o monarcha? o processo começado das provas evidentes de testemunhas oculares contra os partidarios de Bragança. Quem são estes em vista do opusculo do anonymo João das Regras? Já ia o algoz para descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os males da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em virtude de uma queixa e de uma prevenção que o rei já se via obrigado a dirigir ao cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia vergava debaixo do peso de invenciveis remorsos, mas que não podia entregar á casa de Bragança uma corôa sem entregar a vida aos seus tyrannos e crueis usurpadores, e algozes, e d'estes tirava o seu seguro e pedia desaggravo e redempção.

D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma ficção e um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragança não contam com successor, e que são muito sujeitos á maldição da esterilidade. O que D. Duarte pedia para os falsos donatarios, e verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de aleive e da calomnia do falso e fementido João das Regras: quasi todas as successões são actualmente da casa de Bragança por bom e legitimo direito de familia; mas a tyrannia e o roubo é o mesmo—o seu castigo providencial vai sendo identico da mesma catastrophe e represalia.

Esta é a analogia dos factos: os que escrevem a historia não pintam a sua verdade porque não são dignos de praticar as suas gentilezas nem tem a virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o horror das suas traições, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa mordacidade e peçonha. Camões commandou um reducto no cerco memoravel de Diu, Barros e Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre Cesar das suas façanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque temia mais a calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que tomava pela frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem estremecer do vulcão.

Chegado a este ponto, já entregava a descripção ou a lenda d'esta memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples academico, uma vez que fosse dotado de boa fé e acreditasse na Divina Providencia, e désse a esta philosophia o peso que os herejes attribuem ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos recursos. Em regra, moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e pelo signal da sua boa fé; o hereje só admitte da fé e do cunho o maior desprezo para fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe veniaga.

D. João IV tambem usurpou a casa de Bragança e o nobre titulo de duque; todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os dous primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos mesmos meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a excommunhão e o interdicto, na morte a corda e a traição, o mesmo desenlace, e a mesma reprovação e condemnação divina. O conde da Ericeira escreveu n'esta era a sua vergonhosa historia; o conde era verdadeiro sandeu; o author de «Portugal Restaurado» recebeu a falsa herança de uma casa; e trabalhoso no appetite fazendo do conde o fundo da sua ambição pelo veneno que propinava, e pela astucia mais que diabolica de que se servia no empenho. Apenas concluiu o seu trabalho, disse: Dai-me o premio;—e apenas se viu senhor do falso titulo e casa, disse: Dai-me o preço da obra;—e fez d'esta outra historia um thesouro para se enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro João das Regras; porque a sua original possilga nunca se descobriu nem annunciou, e dizia-se que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao pé da feira da Ladra de uma mulher, que vendia a chanfana do açougue pelas portas de Lisboa, e que apregoava pelas ruas maior engano.

Dizia alguem que o grande erro de D. João IV fôra o acclamar-se duque de Bragança: mas que faria o usurpador depois de matar como matou á traição em Lisboa o legitimo successor de Bragança e do throno? quem havia de sustentar a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar e sem horror o monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se recreava com o vil officio de algoz e de executor da nobreza? D. João I principiou a considerar como proprios da corôa todos os bens da casa real de Bragança; D. João dispunha como duque e como senhor de todos os bens para imitar ou produzir a realeza e invicta memoria do senhor D. Manoel I. Esta questão tinha sido tratada e muito debatida na primeira época; todos se acostumaram a considerar a usurpação da casa e dos seus bens como prova heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. João professou o erro em Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de Calvino semelhante ao que foi expulso das Necessidades em nossos dias pelo clamor do povo e pela justa queixa da parte sensata e catholica do reino. Todos os herejes são monarchomacos, o seu rei é de taberna, o seu preito o juramento da loja que o falso rei presta ao veneravel, e se o rei tem o falso cargo jura como rei ao immediato sujeição e obediencia ás decisões maçonicas, e como são muitas as lojas, a cada passo se vê partida ou fraccionada a realeza, ou despedaçada a sua monarchia pelas seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o vislumbre do poder.

Entre nós só tem havido um partido legitimo que é o catholico e brigantino de todas as eras; só um partido usurpador e constante, que é o dos bens da casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais feroz engano. As seitas e os corrilhos, que se formam das fezes de todos os partidos estrangeiros e execraveis contam como elemento uma vez que o lisonjeie e afoute para maior roubo e façanha da contribuição e da injuria que se haja da fazer á casa da Bragança, e com estas promessas todas sobem, e todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto é o que nos resta a provar para complemento da catastrophe e para sua prova real e exuberante.