Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa e por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o titulo ao mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava esta rosa d'ouro só para um rei ou imperador que acontecia ser o que confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo; e jámais o pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por terem o mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que não estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias, nem cansar o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons catholicos e fieis. Durante a usurpação sempre procuraram os herejes tomar lugar e assento, e á medida que fugia a fé da sua pureza invadiam as raças, e vinha o armenio e o judeu, o cigano e o protestante invadir as rendas e fazer monopolio das reaes para cultivar as massas e para dar pasto á luxuria dos maiores desvarios e ameaças. E seria só pela necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de tyrannia? É certo que o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas o principio de desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas successões estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte e pensamento do desprezo da santa lei e fé.
Outra sanha d'este abominavel systema foi o impio tratado de Methuen cujos artigos secretos são da infame propaganda protestante que invadiu o reino por consentimento do falso e perfido governo, e se obrigava este com todos os usurpadores dos bens da santa casa de Bragança a seguir o falso preito, e a prestar homenagem secreta ao demonio e ao mais infame ministro de Calvino, que, segundo dizem, era monarchico, assim como Luthero era republico, e sophistico orador de comicios; e já os protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: mas os seus superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario, e no odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez com Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de heresia, cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da Bretanha e de Londres, como é sabido e se estendia por meio de ramificações secretas por toda a Europa, e bebia as falsas idéas da santa acclamação de D. João I. Esta seita ou partido foi inaugurado pelo mesmo demonio no tempo em que Juliano se fez truão e ridiculo para depôr o papa de sua soberana cadeira e para o entregar, como então se dizia ao mais desvanecido principe que havia de surgir para governar o mando e para resuscitar os immortaes.
Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e protestavam fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior astucia progrediam e illudiam sempre até o grau de maior engano, a este como simples mação, áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos mais adiantados como convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os maiores segredos dos outros graus, em quanto não obtinha os verdadeiros da maior abominação de seu secreto esconjuro.
Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que nasce sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar dos que só podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do seu elemento; porque as claridades da sua existencia não o habilitavam para conviver no espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza, e por isso o precipitam mais depressa para que conheça o que é e o que póde valer como energumeno. Alguem julga que o meteóro póde fazer-se cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou estrella sem que o Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita mais cedo este rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu catholico reinado e se lhe põe o nome de mechas, ou de põe mais...., mais adiante o fazem José do nabo, e o compellem a tomar novo Ditzy, ou a subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo do cadafalso: os inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela tyrannia do crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os seus sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade de obedecer cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso. O sophisma é a apparencia da virtude; os que queimam no inferno o incenso podre ao demonio, são despojados da propria pelle, e victimas da nova crueldade dos monstros.
Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre santo, se a sua tentação inclinasse a S. Pedro para a torpe venda, o demonio que fallava pela bocca do maldito teria conseguido o seu fim, ria do desventurado e cantava a sua victoria. Por esta razão S. Pedro condemnou o tentador com o triplice poder do seu divino amor e pareceu severo, mas foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e ostensivo, já era escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a humanidade para a sua ruina e perdição.
A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro. Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos e sem o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais damnada chorêa da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter n'este mundo e no outro a mesma sorte—a catastrophe—e o mesmo exito e cruel engano.
RENAN
O snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos tratou com exemplar juizo e prudencia a questão da academia real das sciencias e Ernesto Renan. Estas linhas do Jornal da Noite compendiam todos os argumentos do esclarecido publicista: Merecem respeito as convicções. Mas a consciencia dos outros é tão d'elles como a nossa, igualmente livre, de todo o ponto respeitavel.
É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da Republica: nós, que de tolerantes nos desvanecemos, somos intolerantissimos como frades.