Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII, Marcial portuguez. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem ficou viuvo. Deus sabe como o coração de sua esposa Helena de Salazar foi anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava pela côrte diluindo em trovas a fé conjugal, deixava em Alemquer a consorte, cuidando dos trigaes e dos parrécos.
Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais desafortunada que a primeira. Pensava ella, porém, que o marido, ahi pelos cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao santuario da familia com a lyra e com o rheumatismo.
Enganára-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa senhora!
O dissoluto não só a trahia, senão que a zombeteava em verso, depois de a ter mofado na prosa caseira—a prosa de marido enfastiado, que é o vasconso mais barbaro da glottica humana.
Aqui está um dos cantares com que o sobredito Marcial desprimorosamente chasqueava as caricias, os vernizes, as tranças retintas, os algodões que lhe acolchoavam o seio, e arqueavam as ancas da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixão engenhosa inventára, á custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos vestigios da belleza perdida. E observem que o cruel a denomina Sara, equiparando-a á velha da Biblia. Lêde, senhoras, que hospedaes poetas no coração:
Escuta, ó Sara! Pois te falta espelho
para vêr tuas faltas,
não quero que te falte meu conselho
em presumpções tão altas.
Lembre-te agora só que és terra e lôdo
e terra te has-de vêr do mesmo modo;
mas não te digo nem te lembro nada
porque ha muito que em terra estás tornada.
Que importa que, alguma hora, a prata pura
de tuas mãos nascesse,
e que de teus cabellos a espessura
as minas de ouro désse!
Se o tempo vil, que tudo troca e muda,
sómente do ouro poz, por mais ajuda,
em tuas mãos de prata o amarello,
e a prata, de tuas mãos em teu cabello!
se um tempo, foram de marfim brunido
no seculo dourado,
não vês que o tempo as tem já consumido,
não vês que as tem gastado?
Deixa, Sara, deixa esses vãos enredos;
que eu, quando toco teus nodosos dedos,
me parece que apalpo, e não me engano,
cinco cordões de frade franciscano.
Viciando a natureza com taes tintas,
com pinceis delicados,
jasmins e rosas em teu rosto pintas.
Deixa esses vãos cuidados;
pois quando tua cara me alvorota,
mascara me parece de chacota;
e, se é das tintas, digo n'este passo
que a mascara está inda em calhamaço.
Como pretendes, pois, com mil enganos,
vestir mil primaveras
sem ter a primavera de teus annos!
Como não desesperas!
que o tempo chegou já ao seu estio,
aonde toda a fruta perde o brio;
parecendo tua cara desmedrada
fruta que se seccou, noz arrugada.
Se feitura de Deus Eva não fôra,
dissera, sem porfias,
que de Eva foste mãi, velha senhora,
pois te sobejam dias
para esta presumpção que agora tenho;
e, concluindo em fim, a alcançar venho,
pois alcançar não posso tua idade,
que deves ser a mãi da Eternidade.
Teus olhos, por descargo da consciencia,
a idade os tem mettidos
em duas lapas, fazendo penitencia;
e estão tão escondidos,
que, quando os vou buscar porque me choram,
não acerto co' bêco aonde moram;
porque o tempo os mudou, seu passo a passo,
da flor do rosto lá para o cachaço[6].
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Em fim, senhora, se te vejo em osso,
com essa cara posta em tal pescoço,
me parece, tirada a cabelleira,
em cima de um bordão uma caveira.
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Sabe que sei, e d'isto me não gabo,
que te alugou sem duvida o diabo,
invejando teu corpo, cara e dedos
para a Santo Antão fazer maiores medos[7]
E deixa, em fim, tanto vão cuidado;
e ao sagrado te acolhe
primeiro que te ponham em sagrado.
Este conselho colhe;
admitte o que te digo sem desgosto;
que eu, quando vejo teu funesto rosto,
d'elle tambem o seu conselho tomo,
pois cuido que me diz: Memento, homo!
Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D. Catharina, abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e impenitente, por aqui ficou até aos oitenta ou mais, deshonrando a idade provecta com poemas sordidos, e taes que os prelos não os despejaram á circulação dos enxurros. Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no Elogio de poetas lusitanos, conceitua n'esta altura o descaroado marido:
D. Thomaz de Noronha em tanto augmento
Confirma de sus versos la escellencia
Que admirando sutil su entendimiento
Puede hazerle a Quevedo conpetencia:
Alma de tan ayroso movimiento,
Luz parece de sol de su presencia
Y sol a cuya luz crecen desmayos,
Aguila no soy yo de tantos rayos...
Que te fulminem, Jacintho!—diria um leitor circumspecto. Achou-lhe airoso movimento na alma, assim como nós, os filhos d'este seculo cortez e cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um trovista de tasca.
A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre missão: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque metrifica a injuria ou o chasco vil á mulher, é a hydrophobia do talento, é enfermidade repugnante.