Mas tão portuguez era que articulou em seu testamento que, se um dia a mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrazada sobre suas cinzas a capella em que ia esperar o clangor da trombeta!
Ainda não vi impressa a noticia do desastre extraordinario que motivou a morte do D. Gonçalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre José Corrêa, biographos dos arcebispos bracharenses, a souberam ou quizeram divulgar. Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por haver sido prelado como por genio investigador de antiguidade, não ignoraria o que era constante de um processo existente no archivo da mitra.
Eis o caso:
Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a Villa-Flôr com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro homens e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo, mataram-lhe seis homens, e matariam o proprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cahir de costas no terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Villa-Flôr com a fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas, de envolta com parte dos capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante n'aquelle tempo, fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o a D. Affonso IV.
O rei, poucos dias depois, mandou a Villa-Flôr uma alçada com dois algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrilegos que pôde colher na devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os incommodos do arcebispo descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor.
E assim morreu, por effeito de tão miserrimo lance, aquelle valente do Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto successor D. Lourenço, o raio de Aljubarrota. Fôra elle o defensor da cidade do Porto, quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua vanguarda o incendio e a devastação. Fôra elle ainda quem acaudilhára a hoste de portuguezes, quando uma invasão de hespanhoes, em desapoderada fuga, deixou o sangue de trezentas vidas nas lanças dos alabardeiros do arcebispo.
Santo Deus! um heroe d'esta polpa chega a Villa-Flôr, amotina-se a arraia-miuda, foge de escorregão por uma corda, cahe de cangalhas, amolga o osso sacro, e morre! Mas em fim, maior seria a desgraça de Portugal se elle, antes de lesar as vertebras lombares e regiões visinhas, nos não tivesse deixado os embryões da casa de Bragança na pessoa de seu filho prior!
UM INQUISIDOR PORTUGUEZ E O PRINCIPE DE GALES
O filho de Jayme I de Inglaterra veio a Madrid, em 1610, para vêr de perto a princeza Anna, filha de Philippe III, uma das mais formosas mulheres d'aquella época. D. Fernão Martins Mascarenhas, inquisidor geral de Portugal, e residente em Lisboa, assim que soube da chegada do heretico neto de Maria Stuart, escreveu-lhe com a santa presumpção de o reduzir á fé catholica. O principe, todo embebecido nas magias da filha de Philippe III, guardou a carta para mais tarde resolver esse negocio que se lhe figurou de importancia subalterna. A opinião de alguns historiadores, porém, é que a Inglaterra voltaria ao redil da igreja romana, não tanto pela influencia theologica da carta, como pelos filtros amorosos da princeza Anna. O principe de Gales pediu-a para esposa; e, quando em Londres se preparavam os festejos do noivado, morreu o noivo em 1612.