A carta do inquisidor bispo do Algarve é inedita. A este prelado devemos a impagavel fineza de expurgar das livrarias de nossos avós todos os livros gafados de heresias. Se não fosse elle, é muito de recear que em Portugal se lêssem então os livros que no seculo XVII propulsaram as sciencias na França e Allemanha: o que seria uma calamidade. Eis a carta do santo varão:
«A vinda de V. A. a esta côrte foi de tanta alegria para todos os que nascemos em Hespanha, que ainda aquelles que estamos mais distantes da sua presença, temos obrigação de fazer demonstração publica, assim em dar graças a Deus por esta mercê, como em significar a V. A. o animo, e a vontade com que festejamos a honra que todos alcançamos por esta causa.
«O que todos agora desejamos, e pedimos a Deus com continuas orações, para melhor servirmos a V. A. n'aquillo que mais lhe importa, é que queira V. A. ouvir e entender a razão do que por cá acha, e é professarmos a fé, e a religião que professa, e ensina a igreja catholica romana, verdadeiramente apostolica; porque o animo com que desejamos paz perpetua entre as corôas de Hespanha e Inglaterra, nos obriga a procurar a conformidade na religião entre os principes dellas, pois, como diz Santo Agostinho, não póde haver verdadeira concordia aonde os entendimentos estão desunidos na terra.
«Muitas razões se podiam allegar para V. A. se dispôr a fazer este serviço a Deus, e mercê a toda a Hespanha, porque os livros estão cheios d'estas materias, mas tres são só as que lembro a V. A. para satisfazer a obrigação que tenho n'este reino de Portugal.
«A primeira é considerar V. A. que isto que nós professamos em Hespanha, acerca da obediencia á sé apostolica-romana, professaram, sem nenhuma interrupção, os serenissimos reis de Inglaterra por mil annos, desde o tempo de S. Gregorio Magno pontifice, e Mauricio imperador, até o de Henrique VIII de Inglaterra, que por seus respeitos fez mudança na religião; porque como nunca se havia preferir o parecer dos que querem innovar cousas ao juizo d'aquelles que dellas perseveraram por tantos annos, bem se vê, a prudencia natural está pedindo que se repare muito n'esta variedade que se introduziu em Inglaterra nos derradeiros annos. E é muito para vêr a fórma em que escreveu Eduardo, rei de Inglaterra, ao papa Alexandre III, porque ambos estão condemnando o que agora se segue no mesmo reino com palavras tão claras que não soffrem interpretação alguma.
«A segunda razão é porque todos os reis de Inglaterra que antes de Henrique VIII tiveram o sceptro d'aquelle illustre reino depois de Alberto, fundaram a sua jurisdicção na obediencia á igreja romana, em que presidem os verdadeiros successores de S. Pedro, principe dos apostolos, e vigario universal de Christo na terra, até Ina e Ataulfo fazerem o proprio reino tributario da sé apostolica, e este tributo durou por novecentos annos. E ainda que alguns reis de Inglaterra houve que em cousas e casos particulares guardaram menos respeito do que deviam aos pontifices romanos, nunca lhes negaram o serem cabeças da igreja catholica, e sempre depois vieram a fazer penitencia de seus erros, como consta dos proprios annaes e chronicas de Inglaterra que Polidoro Virgilio II seguiu, e tratou em sua historia.
«A terceira razão é porque o mesmo Henrique VIII que fez esta mudança, quando morreu declarou que errára, e por esta causa expirou com summa pena, e inquietação, como consta da relação que fizeram homens de muita virtude, letras, e authoridade que assistiram á sua morte, e os aponta Sandero, com outros muitos historiadores inglezes que trataram de suas cousas; e se não remediou seus erros foi por occulto juizo de Deus que permittiu lhe faltasse n'aquella hora quem o encaminhasse, e lhe lembrasse o que o proprio escreveu tão doutamente contra Luthero, e dirigiu ao papa Leão X.
«Por onde tornando V. A. a receber aquillo que os reis seus antecessores tiveram e professaram por largos annos, sendo tão virtuosos, prudentes e valorosos, como o mundo todo reconhece, não fará mais que restituir á fé a casa d'onde contra razão e justiça anda desterrada; e com esta restituição além da gloria immortal, que alcançará em todos os seculos vindouros, obrigará a Deus Nosso Senhor abrir as mãos da sua liberalidade para lhe acrescentar muitos reinos com novas prosperidades temporaes.»