Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim da Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira alguma cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de Oliveira conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o velho marquez á cova:
«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a, e conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella quanto cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz monastica tudo que mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa, o respeito paternal, o affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos, socego, interesses, em fim, a propria vida que expoz em muitos lances á vingança do marquez, cujo respeito benemerito soffreu muitos desfalques de encontro á coragem intrepida de Noronha... Era elle, porém, o possessor unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas vezes projectou matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o aggrediram: felizmente repulsamos os assassinos. A final, o marquez, authorisado pelo rei, logrou encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve nove mezes; e com muita difficuldade obteve soltura depois da morte do marquez. Fr. Gaspar, tio d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto pôde por demorar tão injusta prisão, vingando d'est'arte os manes do marquez, seu sobrinho.» (Obra cit., pag. 34 e 35).
O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e escudam com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, maus bichos os comem, como disse o Sá de Miranda.
Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra, d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto conde de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no dia 9 de março de 1723.
O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a Valentim de Noronha o retrato que lhe elle dera engastado em moldura de brilhantes... Il me fit voir (diz o amigo de Noronha) entre ses propres mains ce même portrait du marquis, le même jour qu'il en avail fait présent à son infidele Gamarra.
Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a preceito, mieux que personne:
«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em todos os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava igualmente o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente estima. Se amou rasgadamente alguem, foi Noronha.» (Obra cit., pag. 35).
Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada oppoz-se. Mandou chamar o marido, que ainda não era frade. Communicou-lhe o proposito de se declarar casada e passar-se ao dominio de seu homem, como era de justiça. O marido sondou a profundidade do seu direito e a profundeza do peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao patriarcha Santo Agostinho. Sahiu-lhe a igreja com embargos á annullação dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com o marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao marido, isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro, metteu-se em Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de Madrid. (Obra cit., pag. 33, nota A).
Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a quem o rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o nome de carvoeiro da Rosa. Ao proposito d'esta perigosa cigana, escreve o tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira:
«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos. Este pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo. Induziu ella um galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o desgraçado; foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.» (Obra cit., pag. 66).