O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram pela catastrophe da forca.

Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida do Monte contra o desembargador aguazil do carvoeiro. Diziam assim:

Oh! descahido te vejam
Estes olhos peccadores:
Arrastado e perseguido
Já que perco os meus amores.
Todas nós, as freiras juntas
Te havemos de praguejar
Pois por caber com el-rei
Nos vaes desacreditar!
Justiça de Deus te cáia,
E com todo o seu poder;
Na bocca de um bacamarte
Te vejamos padecer.
Homem, deixa-nos viver,
Não sejas tão turbulento;
Deixa divertir as tristes
Que não sahem do convento.
Etc.

Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII, perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga.

—Que livros?

—A Historia do theatro portuguez, onde elle conta pouco mais ou menos essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do actor hespanhol Antonio Ruiz.

Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio. Abri a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como o leitor vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a culpa, confrontando o original e o plagiato.

ELLE

(em 1871)

Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e palaciano. Era homem de bem tanto ás direitas como actor de merito. Do seu porte honrado redundou-lhe uma pensão annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez idolatrar.