Hist. do theatro port.

EU

(em 1866)

Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e palaciano. Era tão homem de bem quanto actor de merecimento. Do seu proceder honrado resultou-lhe uma pensão annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez idolatrar.

O judeu (romance).

Quem, primeiro que elle e eu, dissera isto em francez foi Francisco Xavier de Oliveira, em um livro que provavelmente o snr. Theophilo nunca viu; mas adivinhou-o, e eu copiei d'elle. Porém, no acto da copia, deslisei da versão do professor de litteratura em tres pontos. 1.º Elle escreveu em 1871: Era homem de bem tanto ás direitas como auctor de merito; e eu escrevi em 1866: Era tão homem de bem quanto author de merecimento. E o cavalheiro de Oliveira tinha escripto: Il étoit aussi homme de bien qu'il etoit Acteur de mérite. O tanto ás direitas do snr. Theophilo é uma perola de estylo de que eu não quiz defraudal-o nem ás tortas. 2.º ponto: Elle disse: do seu porte honrado. E eu, gafando a phrase de francezia, puz proceder em lugar de porte. Foi ignorancia que me pesa como porte ou carreto; mas ainda me fica porte ou capacidade para mais toneladas de materia bruta com que me quero dar porte ou importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando em 1866 eu copiava o que o doutor escrevia em 1871: Elle pôz redundou-lhe, e eu resultou-lhe. Do feitio que elle escreveu a idéa fica mais aceada. Na nova edição do Judeu hei de apanhar-lhe o redundou-lhe que é bom.

No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes lhe armei a sancadilha de chamar Antonio Rodrigues ao actor hespanhol que nunca foi Rodrigues; mas sim Ruiz. Faz-se mister sestro de muito mentir para enganar um homem, de quem se copía o engano cinco annos depois! Parece enguiço! O cavalheiro de Oliveira escreveu Ruiz. Cuidei que era abreviatura de Rodrigues, e lá vai a peta de recochête lograr o doutor que m'a encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me desenganou foi o poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor como e quando, se é que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do doutor Theophilo.

Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes decimas:

Victor! já chegou a gente
de Madrid, tão esperada,
e já foi agasalhada
do seu superintendente.
Este padre impertinente
se intitula em Portugal
Dom Hieronomio de tal,
e Cancer tambem seria,
pois á sua enfermaria
puxa as damas do hospital.
Porém, viva o tal padrinho!
só a taes afilhadas chega;
que á Undarro, e á gallega
abençôa o seu carinho.
E baptisa de caminho
com fé pia e fervorosa
a dama em flôr magestosa,
confirmada no primor;
porém, se a Undarro é flôr
tombem a gallega é Rosa.
..............................
..............................
Com que já por uma vez,
temos boa companhia,
graças ao nosso Atouguia
que tal companhia fez,
Em fim, já chegou Garcez,[1]
galan de primeira classe,
que eu não cuidei que chegasse;
e já muita gente diz
que morreu Antonio Ruiz;
mas requiescat in pace.
Amen.

Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de traductor de um livro que nunca viu. E agora vem de molde penitenciar-me d'um insolente repto que escrevi ha dous annos por occasião de recommendar certo livro escripto portuguezmente: