«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio dos sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues! Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna letrada do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as suas cousas originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua ignorancia dos idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar com linguas teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas fallava mouro. O seu forragear no francez era um justo despique dos latrocinios que elles cá nos fizeram em 1808. Se os não citava, tambem elles lá não disseram cujas eram as patenas e os calices de ouro que nos arrebanharam nas igrejas. Retaliação justa.
«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo, não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco a ensinar a mocidade, sustenta creditos de original, affirmados e cimentados na singularidade bordalenga com que transpõe idéas peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto, coxas, esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre sobrepuja o phosphoro.
«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a flecha. Ai do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim!
«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E prometto lembrar-lh'as.
«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de viver tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais intelligente e manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo que, lá ao diante, se saiba quo morri na desconfiança de que o snr. Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os applausos do gentio lôrpa.»
Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me capaz de copiar de toda a gente.
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Agora, direi da Zamperini.
Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos documentos levaram da sensibilidade do peito lusitano.