Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro para pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um systema que não é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela mensalidade, metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de espectaculo, concediam-lhe a lucidez necessaria para cantar de graça. Iam então dous quadrilheiros trazêl-o da enfermaria dos orates em direitura ao camarim. O tenor vestia-se, e era escoltado até ao palco. Ahi, desatava o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um desafogo de injurias rimadas aos emprezarios. O povo trovejava gargalhadas, e o improvisador, aquecido pelos applausos, sarjava a epiderme d'aquelles originaes patifes que, no fim da opera, o devolviam ao seu cubiculo no hospital de S. José.
Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I, condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres illustres que capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei nem o grande ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras, filho do marquez de Pombal, e um dos varios amadores da cantarina.
Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise da logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos capitalistas. Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por ordem do ministro.
Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura, figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma banca; e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos:
Prenez, belle et charmante coquette, prenes tout,
puis que vous êtes dans un país de fous.
Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em inglez:
The true property of an englishman
T'is to pay and despise.........[2]
E mais abaixo:
Mylord, dont kiss her hand,
Because she has no face,
But kiss her... her... her...
Kiss her elsewhere[3]
Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos: