«Alteza Real.
«Alvo das facções, que dividem o meu paiz, e da inimizade das grandes potencias da Europa, acabei a minha vida publica, e, á semelhança de Temistocles, venho sentar-me no lar do povo britannico. Abrigo-me á sombra das suas leis, e para isso invoco vossa alteza real, como o mais poderoso, o mais constante, e o mais generoso dos meus inimigos.
«Napoleão.»
Responder com um asylo magnanimo, e grandioso a esta invocação escripta, teria sido para a Inglaterra a mais nobre das vinganças, e a pagina mais magestosa da sua historia.
Irrisoria illusão! A orgulhosa Albion não vive de gloria: vive de dinheiro. Quem deixou mutilar a Polonia, quem escravisou a India, quem fomentou a guerra civil nos Estados-Unidos, quem viu impassivel as desgraças da França, e quem subjuga, pisa, e tortura a Irlanda, escolheu adrede os leopardos, para insignia e emblema heraldico dos seus armazens da city. A Inglaterra é a feira da Ladra da Europa. Seja assim para honra da raça latina, onde não ha filhos espurios dos chatins do Oriente.
Napoleão vestiu aquella farda dos caçadores da velha guarda, como se estivera em Marengo, Austerlitz ou Iena. Entrou com o general Becker, e com os legionarios dedicados da sua heroica Iliada, n'um escaler--ultimo refugio das suas glorias--e subiu para o brigue francez, que ia leval-o á esquadra ingleza. Becker quiz acompanhal-o n'esta via dolorosa. «Não, não, general, bradou-lhe o vencedor de Arcoli, cuidemos da França. Se entrardes commigo no Bellérophon dirão que me entregastes aos inglezes. Não quero que a França soffra a responsabilidade, a suspeita, e nem sequer a apparencia d'uma traição tamanha.
A bordo do Bellérophon estava o commandante Maitlaud, os seus officiaes, e toda a equipagem esperando o vencido de Waterloo. Dias depois entrava na bahia de Plymooth o Bellérophon ás ordens do almirante Keith, que o recebeu com o respeito obrigado com que o visitára a bordo d'um pontão inglez o almirante Hotham.
A Inglaterra aceitou a affronta e o escarneo das potencias alliadas. Disseram-lhe estas no artigo 2.º da sua famosa declaração: «A prisão de Napoleão Bonaparte é confiada especialmente ao governo britannico.»
Foi a Inglaterra o carcere, foi o traidor, e foi o algoz.
Aceitou tres papeis infames.