Ao cahir da tarde, o snr. Vasconcellos, que não podia demorar-se, fez-me o obsequio de aceitar o meu cavallo, que teve a honra de o levar á estrada do Porto. Ao despedir-se de mim, o meu affavel hospede abraçou-me com effusão de vehementissimo jubilo por me haver conhecido e devido alegres horas tão rapidamente passadas.

Devolveu-se um anno, sem que eu tornasse a vêr o snr. Vasconcellos; não obstante, a imagem d'este cavalheiro, uma vez por outra, acudia ás minhas reminiscencias d'aquelle dia tão litterario, tão cheio de palavras, de systemas, em fim, de mutuas promessas, que me faziam esperar d'aquelle moço alguma cousa menos cruel que um inimigo.

Eis que o snr. Vasconcellos dá á luz um livro de critica á versão do Fausto, pelo snr. visconde de Castilho; e, ainda antes de o lêr, já eu sabia que o meu hospede tão graciosamente recebido, me insultava como escriptor e como homem, enxovalhando-me com vilipendiosas aleivosias, como se não bastasse ao seu injusto rancor malsinar-me de ignorante.

Aqui tens, meu caro amigo, repetido o assignalado successo do advento do snr. Vasconcellos a esta quinta de Seide.

Como elle está escrevendo os escandalos da minha vida, que naturalmente veio espionar quando cá entrou, bom seria que elle dissesse que ca tenho grandes infamias na minha historia lendaria, e uma das mais graúdas foi recebel-o em minha casa.

Falta-me explicar-te onde está o procedimento honroso do snr. Vasconcellos na hospedagem que lhe dei. Está no seguinte: quando elle sahiu da minha mesa, contaram-se as colheres de prata, e não faltava nenhuma! Honra lhe seja!

Teu do coração,

Etc.

---------

P. S. Se o snr. Joaquim de Vasconcellos, depois da publicação d'esta carta, entender que me deve pagar o aluguer da cavalgadura, o almoço e o jantar, authoriso a thesoureira das Velhas do Camarão a receber a importancia, e passar recibo.