ESTUPIDO E INFAME
(Á ACTUALIDADE)
Alguns rapazes sem habilidade, nem estudo que lhes supprisse a incapacidade do engenho, appareceram ahi a pinchar na vaza das letras como sapos de lameiro em tarde trovejada de julho. O mais sapo nas verdes podridões, consoante o phrasear colorido do snr. Guerra Junqueiro, é este marau da Actualidade.
Veio de Lisboa assoldadado para a imprensa do Porto, em serviço de um ignobil aventureiro. Pôz o seu pulso á disposição do estomago, e aviltou a probidade de homem no começo da vida publica, prestando-se a dar vaias,--piadas no calão fadista do birbante que o estipendía--a pessoas que pareciam respeital-o com o seu desprezo silencioso.
Fui eu, desde muito, insultado em livros e folhetos por este gandaieiro da vadiagem lisboeta. Perguntei um dia quem era o enxovêdo, e que razões lhe teria eu dado para não perder lanço de me offender. Responderam-me que era um dos Báthylos do Joaquim Theophilo; e que um dia, o sordido Anachreonte, que poetára amores de Gomorrha na Visão dos tempos, desembuçára-se da mascarrada chlamyde, e dera á luz este safado pinto que sahiu grôlo do ovo.
Já sabem d'onde elle vem.
Disseram-me, outro sim, que um escriptor brioso, chamado Santos Nazareth, jogára com elle a bilharda nas pontas das botas em pleno café-Martinho; de modo que nenhuma pessoa medianamente briosa póde hoje roçar-lhe na cara a palma de uma luva. A parte, portanto, que porvindouramente me houvesse de caber em despiques de pundonor, essa--aviso á Actualidade--pertence á alçada do meu gallego.
Não sei se o publico portuense tem reparado que os seus bons escriptores ou morrem ou fogem. O visconde de Benalcanfor, Ricardo Guimarães, aquelle florido talento que disputou a Lopes de Mendonça as galanterias do folhetim;--Ramalho Ortigão, o prosador elegantissimo, o fidalgo da graça senhoril, a revelação mais assignalada que ainda tivemos do espirito francez;--Alberto Pimentel, a quem se estão desentranhando em fino ouro os minerios mais copiosos da vernaculidade; Sousa Viterbo, dulcissimo poeta e prosador correcto, estes, que seriam para o Porto bastantes padrões de sua litteratura, passaram para Lisboa;--e Silva Pinto, a escoria da cainçada litterateira de Lisboa, baldeou-se no Porto.
É sorte funesta!