PEDRO DE ALPOEM

(Veja a pag. 93 do n.º 3 das Noites)

CARTA DO DOUTOR PEDRO DE ALPOEM CONTADOR PARA O DUQUE DE BRAGANÇA

«Muito illustre snr. duque de Bragança.

«Obriga-me a escrever a v. exc.ª cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos, sobre este negocio de tanta monta, e materia tão importante á honra, vida e estado vosso, e de todos estes reinos de Portugal, a memoria de um avô que tivestes muito conhecido no mundo[1], a quem em tempo tão necessitado de homens, qual elle foi na vida, por nossos e vossos peccados, succedestes no casco da illustrissima casa, sómente, que não na lealdade portugueza, no coração real, no zelo da conservação do reino que houvereis de herdar afamado no mundo todo. Os oleiros, sapateiros, alfaiates, e os mesteres do paço vos furtaram a benção, e o lugar, mostrando-se tão inteiros, generosos e leaes n'este derradeiro termo, que Portugal fez, e com que acabou por alguns annos, como se os privilegios honrosos, ou os titulos illustres, e os morgados e reguengos foram seus d'elles, e não vossos. E como se de rei natural (que podiam ter e dar-vos) não fôra sempre o melhor quinhão o vosso, e dos mais senhores fidalgos a quem favorecia, conversava, e sabia o nome, e com quem distribuia a maior parte dos bens da sua corôa, ficando elle sómente com o estado, e titulo real, com as obrigações, e trabalhos de nos defender a todos, e governar. Porque quem vir com curiosidade as rendas da corôa, e bens patrimoniaes dos reis nas alfandegas, nos contos, e nas sizas da cidade de Lisboa, do Porto, e das mais, achará esta verdade clara, a saber: que todo o bom, e grosso estava repartido, e derramado em juros, tenças, morgados, reguengos, jurisdicções de vassallas, e vassallos, tudo desmembrado da corôa real nos senhores, e fidalgos do reino, de maneira que mais parecia o rei seu pai, ou almoxarife d'elles, que rei, nem senhor. Oh! mal afortunados tempos! Hora infeliz, e desaventurada, e lastima para sentir! Quem de todo não perdeu o juizo com as razões castelhanas de portuguezes elches! É possivel que chegaram estes mesmos senhores de bom sangue, de bom entendimento, de sua livre vontade, e motu proprio, a escolher e a negociar por todos os meios humanos e diabolicos extinguir-se com o sceptro portuguez sua patria, nação, sua honra, fama, estados e suas mesmas casas, vencidos de respeitos, odios e interesses! Mal me parece que lhes lembrou aquella notavel resposta que o conde d'Ourem D. Nuno Alvares Pereira deu a seus irmãos em outro caso semelhante a este. O qual, tendo guerras com Castella o mestre de Aviz que depois foi rei D. João o primeiro de gloriosa memoria, e andando os irmãos d'este valoroso portuguez lançados da parte do rei de Castella, sendo commettido d'elles por parte do rei castelhano com grandes promessas, e partidos que se lançasse tambem com elles, respondeu: «Nunca Deus queira que por dividas, nem haveres eu seja traidor, nem ingrato á terra que me creou, e aonde eu nasci.» Os senhores fidalgos d'este nosso tempo por interesses, e promessas falsas, assignadas em branco, não sómente venderam sua patria, mas pregoavam, e persuadiam esta seita castelhana com tanta vehemencia, elles, suas mulheres, filhos e criados; e com tanto desejo de nos verem a todos convertidos a ella, que Martim Luthero, e os outros heresiarcas que o seguiram não zelaram mais seus erros, e falsa doutrina para a verem perpetuada na igreja de Deus.

«Ora, excellente senhor, quero-vos capitular brevemente os erros gravissimos que n'este negocio commettestes, com os mais senhores fidalgos d'esta conjuração, para que vendo-vos a vós, e a elles n'este espelho claro não percaes alguma boa occasião, se a Deus der em algum tempo, de cobrardes o nome portuguez que perdestes, tanto para cobiçar, e perderes o que ganhastes, vós, e os mais por todas as nações, até com o mesmo rei, e nação a quem n'isso servistes; pois chegaram a chamar á rua onde moravam os governadores quando fugiram de Setubal la calle de los traidores. E não cuido que n'isto vos faço pequeno serviço, e ao bem commum.

«Primeiramente o senhor cardeal dos quatro coroados, jurado rei em Lisboa, lembrando-lhe a obrigação que tinha, e perigo entre mãos de conservar este pedaço de terra que seus antepassados tomaram aos mouros, e defenderam aos castelhanos, ha perto de 500 annos, á custa de muito sangue derramado d'elles, e de seus vassallos em continuas guerras com uns, e com outros, em tomando o sceptro, e vendo os tempos que corriam, logo se acautelou para assegurar o reino em sua liberdade, e rei natural, com perseguir ao snr. D. Antonio seu sobrinho, e a se temer de Bragança, mandando-os afastar de si o mais que pôde, e mettendo nos braços os embaixadores de Castella, de quem se devia temer.

«Dous erros infames commetteu esta leal cidade[2] em nossos tempos que eternamente nunca lhe sahirão do rosto, se houver chronistas desapaixonados: o primeiro foi consentir, e permittir a desaventurada jornada de el-rei D. Sebastião, que no seu porto se embarcou francamente sem haver um vereador, ou mester que acudisse a isto com uma honrada e portugueza doudice. O segundo erro foi aceitar esta cidade ao cardeal por seu rei, e dar-lhe posse do reino sem mais côrtes, nem consulta das outras cidades e povos tão nobres, e mais naturaes do reino do que é a mór parte da gente de Lisboa, recebendo esta cidade por herdeiro legitimo e forçado, sendo clerigo, e impotente, podendo (já que o queria) elegel-o em nome de todo o reino por seu rei arbitrario, eleito com protestação de por sua morte (que tão perto estava á vista) ser outra vez a eleição dos povos. Foi este tão mau conselho, e tamanho erro que bem parece faltar aqui um João das Regras que lembrasse e requeresse.

«Era este principe, como v. exc.ª sabe, irmão ultimo, e inferior em tudo a cinco que teve, e muito aborrecido d'elles todos e de seus proprios paes, de que não faltam ainda testemunhas vivas; por ser homem de baixos espiritos e condições, tençoeiro, vingativo, para pouco, tão inimigo da nação portugueza, e de seu proprio sangue que por mostrar esta natureza sua, perseguiu aos seus sobrinhos, affeiçoando-se aos castelhanos. Foi este principe guardado com vida tantos annos, depois da morte de seus irmãos, sobrinhos e herdeiros do reino, que foram vinte e tantos, para nos herdar, e governar com tantas desventuras, e mofinas que até o caso da ilha da Madeira tão affrontoso o vimos no seu governo e tempo. E para ser deshonra de todos seus avós que com tanto animo, e esforço offereceram sempre a vida e estados por nos não deixarem captivos de castelhanos, lançando ainda muitos d'elles em seus testamentos e cartas grandes maldições, e particularmente el-rei D. Manoel seu pai, a todos seus successores, se em algum tempo pretendessem alliança d'este reino á corôa de Castella, como se póde vêr nos cartorios da torre do tombo da cidade de Lisboa, e de Evora.

«Algum pouco tempo depois, este velho cobarde e cruel, depois de ser rei, dizem que esteve inclinado a declarar a snr.ª D. Catharina, mulher de v. exc.ª por herdeira e direita successora do reino,--parece que receoso d'estas maldições ou remordido na consciencia de algum bom espirito com que Deus nos falta. Depois de encarniçado com as lagrimas que via nos portuguezes por sua má e nativa inclinação, ajudado com as pregações de D. Jorge de Athaide, o algoz da côrte, e de outros discipulos occultos do duque de Ossuna, que pela unitiva desviava, ajudando-se do padre D. Leão, do sobrinho dissoluto e da sobrinha, por evitar guerras, se mudou este rei portuguez d'este santo proposito assestando-se de maneira na devoção de Philippe, e odio dos mais pretensores do reino que nem requerimentos dos mesteres, nem lagrimas dos povos, nem desenganos de procuradores das cidades o demoveram nunca d'este obstinado intento; antes vendo que o povo punha os olhos cheio de esperança no snr. D. Antonio por sua rara humanidade, e por falta de não verem outrem, todo o seu negocio n'este tempo foi proceder contra elle com sentenças crueis, cartas, e editos infames, sendo sobrinho seu, e filho do mais honrado irmão, e amigo que elle teve na vida, e a quem tomava por terceiro quando queria que o rei D. Manoel seu pai o visse, ou ouvisse. E para que v. exc.ª veja quão descoberto castelhano era com os da conjuração que depois se descobriu e fez, um dia, estando em pratica com alguns portuguezes elches, que trazia á ilharga, chegou a dizer que lhe pesava de uma boa somma de mil cruzados de um alvitre que applicava a obras pias, pelos não mandar gastar nos paços de Evora para que quando entrasse o castelhano (a quem n'este caso chamou sobrinho) tivesse logo na entrada bons aposentos onde se recrear.