«D'el-rei D. João o segundo se conta que dizia muitas vezes á mesa entre pratica «quem me poderá fazer entre Portugal e Castella um muro de bronze que chegasse até o céo, que nem os passarinhos de lá voassem para cá, porque nenhum bem nos vem de lá, e males muitos.» Parece-vos, excellente senhor, que se este santo rei lá onde está descançando, e ainda inteiro está seu corpo, ouvira estas palavras de um seu sobrinho, e herdeiro, que ficára contente, e as approvára por acertadas?

«Estes foram seus desenhos e intentos, nos quaes continuou sempre, entretendo pouco e pouco com promessas falsas, que lhe daria principe portuguez, e em paz até sua mortal doença, na qual fez um testamento tão catholico, tão portuguez, tão pio, tão cheio de esmolas para mosteiros, e viuvas pobres e com boa declaração do successor do reino que em quanto o mundo durar será escandalo para quem d'elle souber: porque tão escasso e cruel, tão descuidado nas cousas do reino se mostrou, deixando por sua alma como um pobre escudeiro para que tudo ficasse in solidum a Philippe, que chegaram até cantar pelas ruas de Lisboa e Santarem publicamente aquellas orações por sua alma que elle bem merecia, mas porém nunca ouvidas da bocca dos christãos e innocentes meninos, os quaes diziam assim:

Viva el-rei D. Henrique nos
infernos muitos annos,
pois deixou em testamento
Portugal aos castelhanos.

«Ainda que por obra isto não foi verdade, de tal maneira deixou elle estas cousas ordenadas, e sua tenção declarada aos que deixava commettido o negocio, que tinha razão o povo de lhe cantar estes louvores.

«Mas deixemos já de fallar nos escandalos que este Anti-Christo deu ao reino: porque esperamos ainda em Deus, e na sua justiça divina, que se forem vivos alguns portuguezes dos que agora andam escondidos, e perseguidos, e presos, quando Portugal resuscitar, que a sua ossada que Philippe trasladou para Belem, acompanhada das que estão em Elvas, no espinheiro de Evora, e em outras partes, sejam publicamente queimadas.

«Os cinco traidores do governo, com titulo de defensores nossos, e governadores do reino, herdando por morte d'este principe o odio que elle tinha ao snr. D. Antonio, e á nação portugueza, de maneira começaram logo, em tomando o governo, a guardar todos os respeitos a Philippe, e a seus mexedores ou embaixadores, e nenhum aos pretensores do reino, assim naturaes, como estrangeiros, que logo se viu, que dominava n'elles o humor castelhano. Por onde com infame nome que então cobraram para seus descendentes, terão sempre a culpa do nosso affrontoso captiveiro, e de todos os males que á sombra de boa guerra se fizeram, e ainda fazem n'este triste reino.

«Nem foi pequeno descuido, e pusillanimidade dos procuradores das côrtes, temendo isto d'antes, darem-lhes pacifica obediencia, reconhecendo n'elles a magestade real, porque além de n'isso abrirem mão da occasião e posse que o tempo lhes offerecia de ser do povo a eleição do rei, ou de quem os governasse até isto se determinar, mostraram grande cobardia, vendo já n'elles o que d'antes temiam, e (tendo as costas quentes em Santarem) não os mandarem todos após o cardeal a juizo a darem conta de suas damnadas tenções: porque, á fé, se Santarem desembainhava como o tempo pedia, a carniça começára em Almeirim por estes traidores, e outros que á sua sombra estavam claramente já vistos por falsos e castelhanos, e o reino despertára, e tornára sobre si para que nunca viessemos a poder de castelhanos, nem ousariam entrar elles cá, se viram estes começos sangrentos, porque são tambem ás vezes sadios, e necessarios...

«D. Manoel de Portugal, e um Phebus Moniz requereram nas côrtes que tirassem os governadores suspeitos no governo, ou lhes acrescentassem outros cinco; mas nada aproveitou para animarem os espiritos cobardes. Confiaram de suas palavras; e que, postos em tão alta dignidade com titulo de nossos defensores, fariam como leaes o que eram obrigados á patria e á justiça; mas foi claro e grosseiro engano: por onde os traidores cobraram tanto animo de o não verem em ninguem para lhes ir á mão, e de se verem reconhecidos por suprema e real dignidade, que sem mais temerem, nem fazerem caso de côrtes, continuaram desembaraçadamente com a venda e entrega do reino como lhes ficára encommendado do rei cardeal.

«Mas para sua traição e maldade ser mais abonada e espantosa, n'este mesmo tempo começaram a metter o insolente povo em pensamentos de guerra, e defensão da patria para o desmaginarem dos temores, e desconfianças que n'elles viam. Maldade foi esta nunca vista, nem lida em historia antiga, nem moderna, porque, se nos metteram a todos nos contractos, e partidos em que andavam com Castella, fôramos rendidos, ou entregues com menos deshonras, e perdas. Porque não estava Philippe desarrazoado nos partidos, e condições que nos commettia, ainda que nunca as cumprira, como fez a elles; mas estes senhores, para melhor fazerem seu proveito com este rei estrangeiro a quem pretendiam ganhar a vontade, quizeram elles sómente com os seus parentes e amigos ser os que negociassem esta contractação para que o povo (que d'estas meadas não tinha mais suspeitas e receios) na resistencia, e defensão que fizessem lhes acrescentasse a elles merecimentos e serviços para com sua magestade. E, assim, que palliadamente se communicavam todos n'esta conjuração com cartas, e correios muito tempo antes da morte do rei cardeal. E depois d'ella (que é caso de grande espanto) correndo entre elles esta linguagem de chamarem aos da conjuração sisudos, tendo por nescios e doudos a todos os que, não sendo da sua liga, queriam antes morrer valorosamente em defensão da patria que vêl-a entregue por traições e manhas, sem ordem nem justiça, a seus inimigos com perpetua infamia do nome portuguez, chamando aos taes por escarneo os leaes; de maneira que n'este tempo em que o reino ardia em motins e confusões, em temores e esperanças, suspenso e confuso do successo d'este negocio, começaram suas senhorias a ratificar mais seus ardis, e traições com mandarem cartas e provisões por todo o reino ao estado ecclesiastico em que pediam e recommendavam aos prégadores e curas das igrejas que claramente dissessem ao povo nos pulpitos, e suas estações que se animassem á defensão do reino, apparelhassem armas e fortificações nos muros, porque elles tinham já mandado prover os arraiaes, e ordenado fronteiros-móres, para o que passaram provisões a fidalgos para isso como foi a D. Diogo de Menezes na comarca do Alemtejo, D. Luiz de Portugal na comarca de Thomar, etc. E assim, com estas falsas mostras de leaes, alvoroçaram o povo a falsas esperanças de liberdade e defensão para de todo ficar perdido, e abatido no futuro. Possivel é que algum dos cinco governadores tivesse santo e leal intento n'este desenho; porque se affirma que alguns lhe resistiram, e que o arcebispo de Lisboa não quiz que dentro da cidade se publicasse, nem prégasse este apercebimento; mas elles todos juntos não fizeram mais n'este negocio da liberdade portugueza que o acima dito, sem metterem mais cabedal ou fazerem mais despezas para este effeito que de papel e tinta. É certo que cuidaram que assim como Philippe com estas armas conquistára a elles, e aos mais fidalgos do reino, assim tambem com papel e tinta nos defenderiamos dos tudescos e italianos que elle trazia enganados, havia dous annos, para o metter em Portugal.

«Tinha entendido este cobiçoso rei por espias allemãs que cá mandou reconhecer os fortes do reino em vida do cardeal-rei[3], que sómente para bater os castellos da raia, se n'elles houvesse de entrar, havia mister gastar toda a sua fazenda em polvora, porque se não tivesse por si todas estas achegas, a saber: armas, polvora, chumbo, tirando-nos tudo isto a nós n'este tempo, só Elvas com seu termo (aonde ha perto de quatorze mil homens de pé, e de cavallo) bastava para nos Olivaes, antes de chegarem os castelhanos a bater nos muros, lhes consumir todas as suas forças com a arcabuzaria portugueza. Os traidores dos governadores os seguraram d'este perigo.