«Chegaram estes traidores a tanta cegueira e desavergonhamento, que, tendo jurado todos não tomar voz por algum sem se dar primeiro sentença pelos letrados deputados na causa, avocaram a si, e intentaram de que vindo a Setubal ser juizes em caso tão grave, tão duvidoso, e dar sentença por Philippe, para este fim se partiram de Almeirim para Setubal, porto de mar, convocando a ella os mais fidalgos da conjuração assim leigos, como ecclesiasticos, a saber: o meirinho-mór, D. Antonio de Cascaes, D. Fernando de Linhares, D. Jorge de Athaide, o bispo Pinheiro, e outros muitos que seriam perto de quarenta fidalgos conhecidos[4]. Mandaram logo fechar todas as portas da villa de pedra e cal da grossura do muro, deixando sómente duas abertas com guarnições de soldados postas n'ellas para que não entrassem dentro senão os da conjuração. N'este tempo o conde portuguez do Vimioso (herdando o espirito do conde D. Nuno Alvares Pereira, seu bisavô) que em Almeirim tinha já visto suas traições, os veio seguindo muito á pressa para vêr se podia impedir tanto mal quanto se temia. O que entendido por elles, antes do conde chegar, mandaram dar rebate ao traidor Diogo da Fonseca, seu guarda-mór na mesma villa, que por nenhum modo o deixasse entrar dentro. E assim o esperou ás portas com murrões accesos para lhe defender a entrada; mas, antes d'elle chegar, vendo estes traidores que o povo da villa sabia isto, e se começava a amotinar por parte do conde portuguez, em que escorava grande parte de suas esperanças, tornaram a mandar recado que deixassem entrar, em tempo que elle já vinha pelos arrabaldes. Depois, entrado na villa, e vendo que este conde portuguez com alguns procuradores das côrtes, que á sua sombra se foram tambem lá, para lhes resistir a seus maliciosos intentos de quererem ser juizes, e dar sentença, e que não podia isto ser pelas razões, e embargos que lhes punham, usaram de outra invenção o ardil não menos desaforado que o primeiro, querendo avocar a causa e litigio da successão do reino a votos dos que então se achavam presentes; e porque os procuradores das côrtes que ahi se achavam, á sombra do conde, eram leaes e muitos, determinaram de reduzir n'este conselho e eleição os votos dos tres estados--a saber: ecclesiasticos, fidalgos, e procuradores dos povos a numero de tres votos sómente, dizendo que não era tempo para mais vagar (por ser já Elvas entregue a Philippe) senão de votarem todos Portugal, ou Castella, por favas brancas e negras, os tres estados cada um por si; e, para onde prevalecessem os dous estados nos votos, assim se fizesse. E porque tinham por si os votos dos fidalgos, ao conselho acrescentaram alguns homens novos a saber: Bernardim Ribeiro, e outros por se segurarem mais n'este voto. Tinham tambem pela segunda liga o segundo voto que era o do estado ecclesiastico presente que era o arcebispo de Lisboa e capellão-mór, D. Jorge de Athaide, o bispo Pinheiro; o terceiro voto a que tinham reduzido todos os procuradores dos povos não lhe fazia mau jogo, ainda que votasse, por Portugal. Esta panella assim mexida por D. Christovão de Moura, e proposta no conselho pleno, não pareceu bem aos leaes. E logo o conde portuguez acudiu, e resistiu a ella com os procuradores de sua tenção, protestando que a tal eleição não seria valiosa, e que em caso tão grave, e tão importante a todo o reino, já que o não queriam deixar nos pareceres dos letrados, senão dos votos, que mandassem primeiro chamar os mais procuradores, e senhores do reino para que o que alli se accordasse e resolvesse fosse com consentimento e contentamento das partes. Mas como estes traidores do governo, e fidalgos da conjuração estavam de muito tempo penhorados por Castella, e não sómente na villa, mas tambem nas mesmas casas do duque de Aveiro em que se mostravam com muitos mosquetes, polvora e pellouros para fazerem a sua mais a seu salvo, esperando d'hora em hora pelas galés de Philippe que tinham mandado vir para este intento, a nenhuma cousa se demoveram pelas protestações, e requerimentos que lhes foram feitos sobre este caso, estando tão enfadados da tardança que as galés faziam em chegar, que se ouviu um dia esta palavra ao turco D. João Mascarenhas indo pela varanda que mandou tapar por se temer de algum pellouro bem merecido: «Ah! Philippe, que assim és vagaroso!» E como Deus não queria que o innocente e leal povo ficasse embaraçado na consciencia com a sentença e abominavel eleição do rei, cursaram tantos nortes e tão rijos todo o tempo que elles esperavam pela armada, que, depois de muitas consultas e confusões de accordos, que houve um um dia o de apunhalarem quasi todos os do conselho o conde portuguez.
«Deixada a traça da sentença seguiram a da eleição, determinando fazer este auto solemne dia de S. Pedro e S. Paulo, que era d'alli a dous dias, para que então se declarasse; e, sahindo os dous votos dos dous estados por Castella, como tinham por sem duvida, acolheram-se todos a uma galé e caravella da armada que tinham mandado vir de Lisboa a qual tinham já apparelhada na bahia de Setubal. N'este mesmo dia mandou o conde portuguez recado ao benigno rei D. Antonio que já era entrado e recebido em Lisboa, que acudisse logo antes de se concluir a traição; o qual sabido logo pelos mesmos da guarda dos paços, e pela gente leal que havia na villa, começaram de se amotinar com gritos e ameaços publicos no Sapal, defronte dos traidores, e tal que elles houveram por seu accordo vêr se podiam pôr-se em salvo, e assim determinaram n'aquella noite seguinte se embarcarem, deixando tudo em aberto para pôrem sello a suas traições. Não pôde isto ser tão secreto que tambem se não entendesse dos soldados que logo os começaram a vigiar; e recearam de maneira que, em anoitecendo, com muito risco de suas vidas, e tanto que um se deitou por uma corda, outro se vestiu em um chiote, e se acolheu sobre um asno, os mais buscaram mil invenções baixas, como elles eram dos espiritos, para se irem embarcar. Estes foram Francisco de Sá, alcaide-mór do Porto, D. João Mascarenhas, capitão que foi do segundo cerco de Diu, Diogo Lopes de Sousa, governador da casa do civel. Os da villa vendo já com os olhos a traição, e engano em que os traziam, bramiam como leões, desejando dar-lhes o pago de seu bom governo e lealdade. A este motim acudiu o conde portuguez com animo de christão, e leal como sempre o teve, o qual por muitos justos respeitos impediu não se fazer carniça, entretendo com razões o impeto dos soldados por largo espaço da noite até se porem em salvo, e se embarcarem; porque, se elle não fôra, todos os da conjuração houveram de pagar aquella noite o que deviam á patria, porque parece que de proposito os trazia alli seu peccado juntos ao talho.
«Não faltou quem dissesse que o conde errava n'isto; mas a sua razão convenceu a todos n'aquelle tempo, dizendo que mais fazia a nosso caso fugirem elles que não matal-os em terra, o que soaria mal a quem desapaixonadamente visse este negocio. Basta que os salvou, e deu passaporte por terra a D. Christovão de Moura para se pôr em salvo.
«Bem visto fica n'este breve summario quaes foram os traidores em seu officio e dignidades. Não fallo em D. João Tello porque, quando se foi juntar com elles em Setubal, em uma galé que tomou em Lisboa, entrando pela barra, sabendo os quatro do governo que elle era o quinto, o mandaram servir de bombardas arrazoadamente da torre d'Outão, por não ser da sua tenção a liga. Depois que o viram entrado pelas boccas dos tiros, e isto visto e sabido pela villa, soffreram-no por dissimularem até que seu peccado os levou de mar em fóra, onde andaram em calmaria dous dias á vista da villa, desmaiados, olhando se iam os da terra prendel-os. Este só governador se foi quietamente para sua casa por ser portuguez, onde morreu, dizem que de paixão de vêr as injustiças dos traidores.
«No principio d'esta conjuração já espigada, se foi v. exc.ª a Almeirim, quando o rei-cardeal descobrira sua tenção por Castella. E logo depois a snr.ª D. Catharina com grande estado, e capella de musicos, acompanhada com alguns poucos de ceifões enfronhados em libré de soldados de guarda de vossa pessoa. Já então as cousas eram taes, que para responderdes a quem ereis, e ás obrigações do estado braganção, não sómente não vos houvereis de temer, e ir medroso, mas ser tão temido, e entrar na côrte com um brio portuguez, e com um coração tão grande, que assombrasse o cardeal, e matasse por dentro a todos os traidores que lá andavam; e entretivesseis vossos vassallos todos apparelhados a som de guerra, e postos a piques para toda a desordem, e traição que visseis, ou no rei-cardeal, ou nos pretensores de que vos receaveis. Porque, fallando desapaixonadamente, vós só com vossos parentes, criados, e vassallos tinheis bastantes forças para receber todo o poder, que Philippe tinha apparelhado contra nós, e para obrigardes ao duque d'Alva a uma retirada muito affrontosa. Mas faltou-vos o coração do conde D. Nuno Alvares Pereira, vosso quarto avô. Não sómente nada d'isto fizestes, senão, quando o snr. D. Antonio,--apesar de aborrecido, desnaturado e perseguido não sómente do cardeal-rei seu tio, mas tambem dos traidores do governo, depois de sua morte d'elle--com animo real que herdára do infante D. Luiz, seu pai, se determinava defender-nos da ambição dos estrangeiros, e traição dos naturaes, arriscar sua vida, e estado na defensão do reino, antes que soffrer desordens na justiça da successão, e que todos os partidos honrosos vos fazia á conta de lhe seres companheiro n'este santo proposito, nunca jámais o pôde acabar comvosco por mais que visseis os inimigos entrados pelo reino, e tomarem-vos os vossos aposentos de Villa Viçosa, e armazem d'armas; antes para a vossa culpa ser causa mais de proposito, depois de desenganado de vossas esperanças reaes mais parvoas, dadas pelos traidores do governo, os deixastes em Setubal, e vos fostes a Portel ter consulta com os doudos de vossos parentes do que fazieis, estando já as cousas sem remedio: bem se vos podéra dizer n'este tempo: «Asno morto, cevada ao...» Em vida do cardeal-rei deverieis de cuidar em vós, e em nós. O estupido do conde lavrador, e o arabe do arcebispo de Evora, e o raposa do commendador-mór com os mais que se acharam presentes n'este vosso conselho, como havia muito tempo que estavam feridos da peste castelhana, e peitados a seu sabor com Philippe, accordaram em relação que vos lançasseis de fóra do jogo, e visseis os touros de palanque. Pela primeira lei de Solon atheniense, perdida tendes a casa, e estado só por esta culpa. Mandava esta lei, que quem nas dissensões e nos motins da cidade se não lançasse de algum dos bandos e parcialidades, esperando ser de viva voz quem vença, pelo mesmo caso lhe fossem confiscados todos os seus bens. Nada d'isto tivestes; antes, conforme ao conselho, que vos deram, e tomaram para si estes senhores vossos parentes, vos deixastes ficar n'essa vossa villa desviada, que era o que Philippe desejava e vos pedia. Com esta invenção tomou o turco Asia, Africa, e muita parte da Europa, pondo-se os reis christãos á mira quando este tyranno fazia guerra a algum d'elles. Assim tomou Hungria, Bohemia, o imperio da Grecia, Rhodes, etc.
«N'este tempo que v. exc.ª se apartou do bem commum, olhando sómente para si, o mesmo povo padecia a ultima desaventura de ferro e fogo, sem ter armas, nem resistencia por todo o termo de Elvas, Olivença, Estremoz e todos os outros lugares do Alemtejo. Não quero particularisar mais as culpas de v. exc.ª por não affrontar mais os ossos de quem come a terra.
«Os fidalgos, morgados, e commendadores que em todas as idades foram os nervos da republica, e por esta causa tão privilegiados, e venerados do povo, d'elles (ainda que poucos) se foram para o snr. D. Antonio depois de levantado em rei, para segurar o jogo de ambas as partes, fazendo d'alli o seu negocio com elle, e com Philippe, cosendo a dous cabos (como já fez Veneza muitas vezes em liga da christandade, escrevendo, e dando avisos ao turco contra a liga, e a liga contra o turco). Assim o faziam estes senhores, pendendo ainda mais n'isto para Castella; e tanto, que era grande vergonha, e espanto vêr as cartas que se tomavam cada hora, as espias dos fidalgos portuguezes que andavam á ilharga d'este vencido rei, e entravam em seus conselhos de guerra; outros eram capitães d'armada, que tambem foi vendida tantas vezes, que se cada dia se tirava um capitão-mór, e se punha outro para não o arrematarem, o que não aproveitou nada; tanto assim que o derradeiro capitão (Gaspar de Brito d'Elvas) que era leal, o qual pela não querer vender, o venderam a elle os capitães, ainda que escapou da morte.
«Os outros fidalgos em geral, tirando os criados, inda não todos, d'este senhor rei eleito, parecendo-lhes ainda mau conselho de se arriscarem a alguma desgraça da guerra, e terem comprimento com sua patria sequer nas mostras de fóra, como todos estavam mettidos na conjuração castelhana, e assegurada sua fazenda, e mercadoria, tomaram o conselho que v. exc.ª tomou para si, escondendo-se pelos mattos em recintos, em bandos, como zorzaes[5], esperando ouvir novas do mundo, como se conta de um esforçado em uma galé, que escondendo-se na escotilha, ou coberta ao tempo da briga, depois de acabada, perguntou de lá: «Levam-nos, ou levamol-os?»
«Outros, depois de tomado Cascaes, batendo-se já a torre de S. Gião, ouvindo-se os tiros em Lisboa, se esconderam dentro na cidade com tanto segredo e resguardo para não serem chamados; e obrigados a acudir a tão extrema necessidade, como padecia o reino, chegaram a mandar fechar as portas de pedra e cal das casas onde se escondiam, mettidos com armas, e cavallos dentro em casa, dando-lhes os seus de comer por janellas de noite, parecendo-lhes que quando os reis, e republicas instituiram os grandes, os fidalgos, e morgados, que foi para comerem, e vestirem melhor, para jogarem mais grosso, e para terem muitos criados para lograrem as delicias do mundo; e que, quando viesse o tempo da guerra e do trabalho, não tivesse n'elles a republica braço e columna para se defender e onde se encostar.