Na madrugada de 25 de maio de 1817 entrou preso, na torre de S. Julião, o heroico martyr portuguez. Posto em um calabouço, sem meios de subsistencia alli, sem providencias tomadas para a sua alimentação, sem uma manta que o cobrisse ou lhe servisse de leito, arremessado para uma masmorra lageada e humida viveu assim cinco mezes--nos primeiros dias da caridade ingleza, mais tarde dos meios que pôde obter pelos seus haveres. A generosidade do governo viera, no fim de seis dias d'encerramento, em seu soccorro, arbitrando-lhe a sumptuosa somma de doze vintens diarios, no caso que elle não possuisse dinheiro ou qualquer outro meio para se sustentar á sua custa.

Desamparado, na carencia absoluta de todos os confortos, coberto de pustulas ou lepra hedionda, que lhe alastrava pelas faces, abandonado de tudo e de todos, offendido, injuriado, e calumniado até pelo proprio clero, é para crêr, e affirmam-no alguns, que perdera a razão.

Continuemos as citações:

«Um desembargador e um escrivão foram repetidas vezes interrogar o réo na sua masmorra sem outras testemunhas, senão os tormentos, e angustias que o cercavam. Quem tolhia, que entre o desembargador, e o escrivão houvesse intelligencia, para fazer constar o que o preso nunca disse, nem imaginou dizer? Quem nos ha de garantir, que isto não aconteceu assim? O seu amor pela justiça? A sua humanidade, e compaixão?... Mas sabem todos que desde o momento da prisão até ao momento da morte, os officiaes, e ministros de justiça, que tiveram contacto com elle deram publicamente bastantes provas de serem seus algozes. João Gaudencio disse publicamente a alguem, que lhe representou a inhumanidade, com que era tratado Gomes Freire: «Nós não conhecemos essa palavra.» Acresce mais a difficuldade, que todos reconheciam em Gomes Freire de se explicar bem em portuguez; este inconveniente, unido ás dôres que soffria o desgraçado general, procedidas de uma inflammação do rosto, por lhe não quererem permittir que se barbeasse (o que o tinha continuadamente em um estado de delirio), é que deu causa a que o marechal Beresford recommendasse ao marechal Archiball Campbell, que vigiasse sobre o estado das suas faculdades mentaes; dava toda a facilidade ao desembargador, que lhe fez as perguntas de o surprehender á sua vontade, fazendo-lhe dizer o que elle desembargador quizesse, sem que o réo d'isso se precatasse.»

Basta. Turva-se a intelligencia perante tantos horrores. Apressemos o desenlace d'este medonho drama. Digamos rapidamente como terminou este supplicio hediondo.

A execução de onze desgraçados fez-se no dia 18 de outubro no campo de Santa Anna em presença da plebe fanatisada e escrava.

O tenente-general Gomes Freire foi enforcado sobre a esplanada da torre de S. Julião ás nove horas da manhã do mesmo dia. Levaram-no d'alva vestida, e descalço. Os odios dos seus algozes careciam d'estas ultimas affrontas.

Ainda a 16 d'outubro escrevia elle a seu primo, Antonio de Sousa Falcão: «No caso que se não attenda aos embargos, então, peço-te, que o letrado faça um requerimento em meu nome, para que em vez de me enforcarem, me fuzilem. Quero a morte do soldado. Peço-te que ponhas n'isto toda a efficacia possivel, que é a ultima vontade, que te pede um amigo verdadeiro com o ultimo adeus.--Gomes Freire.»

Baldado pedido--derradeira illusão d'aquelle grande espirito! Quizeram que a morte fosse affrontosa na forca, e assim terminou a existencia um dos mais distinctos generaes portuguezes.

O illustre soldado subiu ao patibulo sereno e impassivel. Proferiu algumas palavras. É para crêr que foram as ultimas aspirações d'aquella nobilissima alma, pela independencia e liberdade da patria. Mas os padres que o acompanhavam romperam em vozeria tão escandalosa, e descomposta que não se poderam recolher as intenções solemnes e derradeiras do martyr.