Chegou Alvaro ao Salgueiral, deixando a franceza no Porto.
A tia recebeu-o com a sua inalteravel ternura, e levemente o arguiu de perdulario. Queixou-se elle de lhe ser cortada uma brilhante carreira. D. Antonia consolou-o antepondo á vaidade de o vêr ministro o contentamento de o ter comsigo. Alvaro contrafez o prazer de se sentir tão querido, e nunca fôra tão amoravel para sua tia.
Esta senhora herdára da indole do pai a mania de se afidalgar. Muitas vezes me pediu que lhe lêsse uns codices genealogicos, escriptos no seculo XVII, relativos ás proezas dos avós de seu marido; e coriscava-lhe então nos olhos o enthusiasmo, como se o inclito sangue dos façanhosos Eças se lhe infiltrasse das arterias do chorado esposo.
Uma vez, contando-lhe eu que o filho de um socio de seu pai acabava de ser agraciado com o baronato, D. Antonia, por entre gargalhadas de sisudo espirito, revelou despeito, e talvez cubiça de ser ridicula como o filho do socio de seu pai.
Não me espantei, pois, quando Alvaro Cordeiro me disse que ia a Lisboa agenciar o titulo de viscondessa para sua tia. Dei os parabéns a D. Antonia, persuadido de que o titulo seria negocio feito, desde que o agente levava ordem franca para negociar a mercadoria.
Passadas algumas semanas, D. Antonia de Eça recebeu a participação de que era agraciada por sua magestade, em attenção á illustre ascendencia e serviços de seu marido, com o titulo de viscondessa do Salgueiral, em uma vida.
Fui eu o encarregado de transmittir mil libras ao sobrinho para pagar os direitos de mercê, luvas, etc.
Ora, seria uma offensa á tua critica dizer-te que Alvaro estava em Cintra com a franceza, dissolvendo em prazeres as mil libras da excellente creatura, e forjando cartas de aviso e alvarás de viscondessa.
Fazia tristeza a pobre mulher! Só eu sabia que ella era enganada pelo sobrinho, porque tive pessoa que procurasse informações na respectiva secretaria. Todos a tratavam de viscondessa, e eu tambem. E o titulo desconcertára-lhe por tal maneira o siso que, ás vezes, fallando-me do marido defunto, chamava-lhe o seu visconde, tornando a graça retroactiva uns bons vinte annos. O letreiro, que lêste na porta, mandou-o ella gravar tambem no jazigo de familia, na baixella, nos reposteiros da sala, que nunca os tivera; e então a corôa essa appareceu mal pintada em tudo, desde os escabellos antigos do salão-de-espera até aos portaes de todas as quintas.
Um dia, escreve-lhe o sobrinho de Lisboa, contando-lhe o seguinte: que, ao sahir de Paris, encarregára o seu ministro de continuar indagações ácerca dos descendentes de seu tio o general Geraldo de Carvalho, morto na batalha de Waterloo; e acrescentava que a final o visconde de Paiva descobrira em Saint-Nazaire uma neta do general, menina de muitas prendas e virtudes, vivendo de uma prestação do estado, proposta ao parlamento por Napoleão III. Continuava Alvaro pedindo licença á palerma da velha para ir visitar sua prima, e offerecer-lhe em nome de sua tia viscondessa passar um verão no bello Minho.