D. Antonia rejubilou com esta nova, e fez-me participante da sua alegria. Que repugnancia eu senti em obtemperar a esta novissima velhacaria de Alvaro! Mas eu sentia que o descobrir-lhe uma trapacice me obrigava moralmente a descobrir-lhe as outras.

Entretanto--pensava eu--quem sabe? Póde ser que exista a neta do general Geraldo. Porém, não seria acertado averiguar primeiro se existia semelhante general?

Escrevi a um sabio de Braga perguntando-lhe se tinha noticia de tal nome na historia militar de Napoleão I. Respondeu-me o sabio que consultára miudamente a Historia do consulado e do imperio, e entre os generaes vivos e mortos não se lhe deparára tal Geraldo, nem ainda entre os officiaes subalternos; mas que, consultando homens de mais de oitenta annos, de Braga, soubera que Geraldo, cunhado do chapeleiro, capitão de infanteria, morrera na defeza de Badajoz em 1811.

Como quer que fosse, á volta de trinta dias, Alvaro Cordeiro estava no Salgueiral com sua prima mademoiselle Cora de Carvalho, para quem D. Antonia se mostrava infinitamente graciosa. Uma franceza velha acompanhava a nova sob o titulo de aia, honestando assim a viagem do uma menina solteira com seu primo.

Escuso talvez dizer-te que...

--A franceza era a cocotte--atalhei para acabar hesitações a respeito da minha perspicacia.

--Mas uma rapariga diabolicamente bonita, com uns tregeitos sarcasticos, que me pareceram a expressão de escarneo e zombaria d'aquella senhora tão digna de menos ignobil sobrinho.

Era bonito ouvil-a fallar de seu pai, gentil-homem picardo, e de sua mãi, que vinha a ser filha do general Geraldo de Carvalho. E o que mais me espantava era a menina palavrear o portuguez menos mal, tendo fallado, um mez antes, com o primeiro portuguez que encontrára em sua vida!

D. Antonia brindou-a com parte de suas joias, foi com ella a Braga mostral-a aos seus parentes; e tanto se lhe devotou que a mim me chegou a dizer que não levaria a mal que seu sobrinho a desposasse.

Eu não pude então conter-me, que não exclamasse: «Deus nos livre!»